Bolha de Crédito
Há uma bolha de crédito no Brasil? Ainda não.
*MARCELO CARVALHO, economista-chefe do BNP Paribas na América Latina
Artigo publicado na Revista França-Brasil, Agosto/Setembro 2011
A experiência internacional sugere que as crises financeiras geralmente são precedidas por um “boom” de crédito. Na verdade, há evidências argumentando que o crescimento do crédito é o melhor alerta individual de futura instabilidade financeira.
Será que o Brasil enfrenta hoje uma bolha de crédito, prestes a estourar? Ainda não. De fato, o crédito vem se expandido rapidamente no país. Mas existem vários fatores atenuantes, dando suporte à convicção de que o desastre não é inevitável. O crédito vem crescendo rapidamente, sim, mas a partir de um ponto de origem baixo; e tanto o Banco Central como os próprios bancos parecem bem cientes dos riscos envolvidos; medidas têm sido adotadas para esfriar as coisas; o sistema financeiro está bem capitalizado e regulamentado; e o histórico recente no lidar com crises cíclicas é encorajador.
Como sempre, não há espaço para complacência. Supervisão adequada, um acompanhamento atento e regulamentação prudencial permanecem ingredientes essenciais para evitar que uma expansão excessiva hoje se transforme em colapso financeiro amanhã. Em outras palavras: até aqui tudo bem, mas é sempre bom ficar de olho.
O crédito do Brasil tem crescido rapidamente nos últimos vários anos, a um ritmo anual de dois dígitos, acima de 20%, e mais rápido que o intervalo de 10%-15% que o Banco Central tem mencionado como um ritmo mais adequado. O estoque total de crédito já bate em quase 50% o PIB. Essa razão ainda não parece particularmente elevada para padrões internacionais. Mas aumentou significativamente em relação ao patamar mais perto de 20%, observado há cerca de uma década, em função de maior estabilidade macroeconômica, ampliação de horizontes de planejamento, tendência de declínio dos juros ao longo dos anos e maior penetração do crédito, em meio a emprego crescente e expansão da classe média.
Em particular, o mercado hipotecário tem crescido muito rapidamente, mas de um ponto de partida extremamente baixo, e agora representa apenas cerca de 4% do PIB – o que ainda é muito pouco pelos padrões internacionais. Se o mercado de hipotecas no Brasil quiser se aproximar dos padrões internacionais, ele ainda terá de crescer muito rapidamente durante muitos anos. O desafio, claro, é como administrar essa expansão de forma prudente, evitando o acúmulo de excessos e desequilíbrios ao longo do caminho.
O histórico recente do Brasil em lidar com períodos de desaquecimento econômico é bastante encorajador, a julgar pelo desempenho do sistema financeiro durante a crise de 2008-2009, quando o governo, bem como o sistema bancário, agiu com rapidez e de forma prudente. Importante: o domicílio médio brasileiro não parece particularmente alavancado, a julgar por comparações internacionais, embora as altas taxas no Brasil certamente pesem sobre a carga de pagamento de juros.
Os bancos brasileiros estão bem capitalizados e líquidos. O sistema financeiro tem níveis de adequação de capital significativamente acima do índice mínimo de Basileia, de 8%, bem como acima do mínimo regulatório brasileiro, de 11%. Enquanto bancos menores poderão passar por um processo de consolidação ao longo do tempo, há pouca dúvida sobre a robustez dos grandes bancos no Brasil e a saúde do sistema financeiro brasileiro como um todo.

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