A lenta recuperação da economia brasileira ainda mais dificultada pelo agravamento da guerra comercial entre Estados Unidos e China.

De maneira unânime, os economistas Gustavo Arruda do BNP Paribas, Vladimir do Vale do Crédit Agricole e Octavio de Barros da Quantum4 e vice-presidente da CCIFB acreditam que a retomada do crescimento brasileiro ficou ainda mais dificultada diante do cenário global adverso, sobretudo com o recrudescimento das tensões entre Estados Unidos e China. As exportações mundiais estão em rota de desaceleração de 5% na comparação interanual. Historicamente, o comércio mundial cresce o dobro ou mais do que o PIB mundial. Nesse contexto, a indústria de transformação está liderando o processo de desaceleração global de forma sincronizada nos países desenvolvidos com um desarranjo considerável nas cadeias globais de valor. As taxas negativas de juros se acentuam nos países maduros traduzindo uma visão negativa do crescimento mundial nos próximos anos.

Do ponto de vista doméstico, há consenso entre esses economistas que participaram da última reunião do Observatório Econômico, da Câmara de Comércio Internacional França-Brasil de São Paulo (CCIFB-SP), realizada no dia 22 de agosto, de que a economia brasileira passa por uma mudança estrutural de modelo com uma transformação profunda na área fiscal. Essas mudanças são muito positivas e já estão tendo impacto na redução das taxas de juros e da inflação no país. A aprovação da Reforma da Previdência na Câmara e as perspectivas positivas de avanços na área tributária criam condições para uma economia mais previsível e menos volátil. Porém ainda não se observa uma retomada dos investimentos (à exceção dos de infraestrutura), muito possivelmente por falta de sinais mais claros de retomada da demanda.

“É como se houvesse uma crise de abstinência de incentivos estatais”, mencionou Octavio de Barros, fazendo referência a uma reflexão recente do economista Armando Castelar da FGV do Rio. Será necessário ter um pouco de paciência até que o setor privado se adapte a nova realidade e passe a ter um papel protagônico na retomada dos investimentos.

Os economistas do Observatório Econômico acreditam que há espaço para redução da ociosidade da economia em 2020 mas tornou-se difícil que as exportações se tornem um importante driver da retomada brasileira em função do recrudescimento da demanda mundial. Houve também preocupação com o impacto da política ambiental brasileira sobre a demanda de produtos agropecuários.

As taxas de juros do Brasil estão no menor nível da história recente e, ao que tudo indica, vão cair ainda mais para ativar a economia. A taxa de inflação está abaixo da média dos países emergentes. Ainda, assim, a economia brasileira deverá apresentar um crescimento em torno de 0,8% em 2019 e de algo em torno de 2% em 2020.

Uma boa notícia é que o crédito do setor privado já supera o crédito bancário público no Brasil. Grandes e médias empresas vêm substituindo seus financiamentos junto ao BNDES e suas dívidas externas por operações no mercado de capitais doméstico que avança promissoramente com taxas de juros bastante baixas para padrões históricos.

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