Como o Coronavírus e o cenário mundial vão impactar a economia brasileira em 2020

Sendo a China hoje a principal grande locomotiva da economia mundial, muitas cadeias de valor estão sendo afetadas pelas reações políticas e empresariais ao episódio do coronavírus. Comércio global e investimentos globais estão, pelo menos temporariamente, bastante impactados. Portanto, os efeitos do coronavírus já são sentidos muito além do continente asiático. Os economistas Octavio de Barros, da Quantum4, Vladimir do Vale, economista-chefe do Crédit Agricole, e Gustavo Arruda, economista sênior para a América Latina do BNP Paribas, são unanimes em dizer que não há como medir de forma efetiva, no momento, os impactos a longo prazo da nova síndrome no cenário econômico. Os impactos de curto prazo são evidentes e já se traduzem na revisão generalizada não apenas do crescimento chinês como também do global. Todos participaram do Comitê “Observatório Econômico”, da Câmara de Comércio França-Brasil de São Paulo (CCIFB-SP), realizada no dia 05 de fevereiro.

Para Barros, a epidemia afeta a China em um momento delicado, pois o país já estava em processo de desaceleração, ao contrário do episódio da SARS de 2003 quando a China crescia a 10,5% ao ano. Já Vladimir do Vale sinalizou dois possíveis cenários. O primeiro, com um impacto forte no curto prazo, cerca de 2% do PIB no primeiro trimestre, e uma recuperação rápida por meio de medidas internas estimuladas pelo governo chinês. E um segundo, no qual a recuperação por meio das ações internas será mais lenta.

Sobre o crescimento da economia brasileira em 2020, diante dos possíveis impactos do Coronavírus, mas não apenas, os economistas apontam um crescimento do PIB em torno de 2% a 2,5% com claro viés de baixa. São unânimes em dizer que a taxa de juros real e a inflação seguirão em patamares baixos e destacaram, ainda, a importância da aprovação das reformas pelo Congresso Nacional. Barros, particularmente, acredita que a reforma tributária possa avançar em 2020 apesar de ser um ano eleitoral.

Olhando ainda o cenário internacional, Barros ressaltou que a indústria de transformação está liderando o processo de desaceleração global em função da guerra comercial e da crise estrutural global do setor automobilístico. Ressaltou, ainda, que a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China é essencialmente uma corrida geopolítica, em busca da supremacia digital. Segundo ele, a fronteira entre corporações tecnológicas e governos está desaparecendo em função disso.

O economista Gustavo Arruda apresentou um estudo realizado documentando o crescimento econômico desigual das diferentes regiões brasileiras. Os dados apresentados mostram que o Sul e Centro Oeste crescem entre 2,5% e 3%, a região Norte 4%. O Nordeste 0,6% e o Sudeste 0,5%. De acordo com Arruda, o Sul e Centro Oeste são puxados pelas atividades do setor agrobusiness e a região Norte pelo aumento da produção de minerais. Uma das conclusões do levantamento é o forte impacto que o setor público ainda tem em cada estado.  Segundo ele, a “crise de abstinência” de incentivo estatal demorará ainda para ser superada.

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