Dia Mundial da Alimentação: como os atos de alimentar e nutrir impactam o futuro

Conversamos com representantes de organizações sociais sobre os desafios e as iniciativas voltadas à nutrição e alimentação. Confira a entrevista com Winnee Louise, Gerente de Impacto da Gastromotiva, e Sandra Vale, responsável pela área de Desenvolvimento Institucional do Sefras

 

Dia 16 de outubro é comemorado o Dia Mundial da Alimentação. A comemoração teve início em 1981, e é celebrada em mais de 150 países como uma importante data para conscientizar a opinião pública sobre questões relativas à nutrição e alimentação. 

A data corresponde também à fundação da FAO (Food and Agriculture Organization), Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, que comemora 75 anos em 2020. O lema deste ano é: “Cultivar, Alimentar, Preservar. Juntos. As nossas Ações são o nosso Futuro”.

No Brasil, várias organizações, chefs de cozinha e voluntários, que já têm atuado fortemente nessas frentes, se mobilizaram para marcar esta semana com diferentes iniciativas.

Entre elas, está a campanha “Gente É Pra Brilhar, Não Pra Morrer De Fome”, com ações em diferentes capitais do país, que tem como um dos seus correalizadores o Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras), organização humanitária que, em outubro, irá alcançar a marca de  1 milhão de refeições servidas na emergencial Tenda Franciscana, criada especialmente para atender e alimentar os vulneráveis durante a pandemia.

Em parceria com entidades como a Gastromotiva – organização cocriadora do Movimento da Gastronomia Social –  e Chefs de Cozinha, como Flávia Quaresma e Ana Ribeiro, o Sefras realizará neste sábado, 17 de outubro, uma ação no centro do Rio de Janeiro para distribuir mais de 500 quentinhas.

A Câmara conversou com Winnee Louise, Gerente de Impacto da Gastromotiva, e Sandra Vale, responsável pela área de Desenvolvimento Institucional do Sefras.

 

Confira nosso bate-papo:

 

1. O Dia mundial da Alimentação é comemorado há 40 anos. O que a pandemia de Covid-19 traz como desafios e oportunidades no Brasil, e particularmente no Rio de Janeiro, para podermos avançar no lema 2020: “Cultivar, Alimentar, Preservar. Juntos. As nossas Ações são o nosso Futuro”?

Winnee Louise (Gastromotiva) – Os desafios estão conectados com o trabalho Inter setorial. Então é desafiador porque esse é um momento em que mais do que nunca a gente precisa unir forças e entender que independentemente da sua área de atuação, da sua frente de trabalho – sempre conectada com as três esferas, poder público, privado e sociedade civil -, isso precisa estar interligado ao impacto sistêmico e a políticas públicas. O trabalho precisa ser conduzido de forma articulada e Inter setorial. Então, vejo este como o principal desafio. Apesar de todos os problemas que foram agravados com a crise, esse momento também trouxe oportunidades na dimensão da gente inovar, de sair da caixinha. Sempre que tem uma crise obrigatoriamente precisamos dar um passo atrás, olhar para o modelo, para o que é feito hoje, entender que esse modelo precisa ser revisto e readequado em função de uma nova realidade, de uma crise sistêmica como a pandemia, por exemplo. Para sair dessa caixa, a gente precisa inovar. Então, a oportunidade está aí.

 

Sandra Vale (Sefras) –  A pandemia revelou uma das faces mais duras da nossa sociedade: antes da febre, veio a fome. Milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade extrema foram diretamente impactadas pelos efeitos sociais da Covid-19 (fome, violência, desemprego, dentre outros), e esse impacto devastador não irá passar com a flexibilização ou retomada de algum tipo desta dita normalidade que somente uma parcela da sociedade tem acesso. Porém esta dura realidade (a fome) também revelou a potência da união de esforços no enfrentamento à fome. Esforços esses individuais, coletivos, organizacionais, corporativos e em muitas cidades governamentais. Organizações como o Sefras (Serviço Franciscano de Solidariedade – organização com mais de 20 anos de atuação no Brasil) mobilizaram esforços e recursos junto ao poder público, a empresas, sociedade civil organizada e indivíduos, que através de doações alcançaram 1 milhão de pessoas (refeições fornecidas desde março até outubro) no Rio de Janeiro e São Paulo. Isso nos mostra que um novo futuro, um futuro livre de violências como a fome, é possível. Mas para que isso seja realizado o lema do Dia Mundial da Alimentação é urgente e deveria estar na pauta de todos e todas nós. A fome não pode ser o prato principal. A fome precisa ser erradicada e somente vamos vencer esse desafio se nos unirmos e buscarmos soluções possíveis, sustentáveis e conectadas com uma nova economia. 

 

2. O prêmio Nobel da Paz de 2020 foi concedido para o Programa Mundial de Alimentação da ONU (Organização das Nações Unidas) por seu combate à fome.  Como suas respectivas organizações, que atuam também nessa frente, receberam a notícia dessa premiação ?

Winnee Louise (Gastromotiva) – A Gastromotiva recebeu essa notícia da premiação do Programa Mundial de Alimentação com muita alegria, com muito orgulho. Institucionalmente nós nos sentimos honrados por termos tido o prazer de trabalhar com o PMA em El Salvador ao longo dos últimos anos, replicando a nossa metodologia de ensino e possibilitando que milhares de jovens e adultos pudessem se inserir no mercado de trabalho de forma qualificada, modificando o seu olhar para com o alimento, de uma forma transformadora e sustentável. Além de muito orgulho, nos sentimos de alguma forma partícipes dessa celebração enquanto parceiros institucionais do PMA.

Sandra Vale (Sefras) – Com muita felicidade e com a certeza de que todos os esforços dos últimos oito meses (e também destes 20 anos), foram o único caminho possível a ser trilhado por nós. O Sefras é uma das organizações, dentro das centenas, que vem diariamente buscando soluções possíveis e sustentáveis para mudar a realidade de milhares de pessoas impactadas diretamente pela fome, pela desigualdade e por todas as violências que permeiam dias e noites. Não há retorno nessa luta. Enfrentar, mobilizar e fazer junto é o único caminho possível para construirmos um novo futuro. Esse não é um trabalho individual. Essa é uma luta coletiva, e o prêmio Nobel concedido ao Programa Mundial de Alimentação da ONU é um recado claro para todos e todas nós: enquanto houver fome, não haverá paz. 

 

3. Nos dias 17 e 18 de outubro, vocês estarão juntos com vários outros parceiros numa mobilização solidária em prol da população vulnerável no Rio de Janeiro, ação  focada na distribuição de mais de 500 quentinhas. Que ações complementares e estruturantes, em parceria com o setor produtivo e a sociedade civil, acredita que podem ser vislumbradas a médio e longo prazo?

Winnee Louise (Gastromotiva) – As ações complementares e estruturantes, para além da ação pontual que vai acontecer no dia 17, estão diretamente conectadas a um plano de ação que já existe ligado ao combate à fome. Sendo assim, é importante que haja, primeiro um nível de conscientização, e depois de articulação do poder público, do poder privado e da sociedade civil para questões relacionadas à segurança alimentar e nutricional e ao direito à alimentação adequada. É importante que esses três atores se unam para a aplicabilidade prática de políticas ligadas à segurança alimentar e nutricional. Já existe um plano de atuação, um plano de intervenção elaborado em nível de políticas públicas voltadas a isso.

Sandra Vale (Sefras) – Um dos lemas de Francisco de Assis fala sobre começar fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível. Tendo isso como base estruturante de todo o nosso trabalho, acreditamos que construir coletivamente, através de parcerias como essa com a Gastromotiva ou com a Chef Flávia Quaresma, e tantos outros e outras, nos permitirá continuar com o compromisso de solidariedade e enfrentamento que assumimos durante os últimos 20 anos, e que nos últimos 8 meses nos fez estar de domingo a domingo na rua fornecendo mais de 5.000 refeições diariamente, para toda uma população em situação de rua que permanece invisível para uma boa parte da população brasileira. Temos que fazer muito mais, a fome é uma realidade dura que precisa ser enfrentada e somente vamos conseguir fazer isso se nos unirmos. Precisamos diariamente nos perguntar: quanto vale uma vida? Se o silêncio for a resposta mais simples, algo ainda está muito errado. Esse é o desafio que estamos assumindo, precisamos responder essa pergunta e precisamos de todos e todas para construir uma resposta melhor do que temos hoje. Se unam ao Sefras se unam a todos e todas que seguem conosco nesta luta.

 

Imagens: Gastromotiva / Arquivo pessoal Sandra Vale. 

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