Europeu protela investimento à espera da reforma da Previdência

Levantamentos de câmaras de comércio apontam melhora no humor dos empresários com o país

Arthur Cagliari (Folha de S.Paulo)

São Paulo

Grandes empresas com matrizes europeias aguardam a aprovação da reforma da Previdência pelo governo Bolsonaro para definirem novos investimentos no Brasil.

Pesquisas realizadas por câmaras de comércio da Alemanha, França, Espanha e Suécia que, ao todo, ouviram 447 executivos indicam a clara mudança de humor – para melhor. A perspectiva de o novo governo zelar pela saúde da economia melhorou a confiança entre estrangeiros. Mas a maioria prefere aguardar resultados concretos antes de colocar dinheiro no país.

“O ambiente mudou bastante. O humor das pessoas melhorou. Isso porque há a esperança de que as reformas que a indústria vê como importantes agora sejam efetivadas”, disse Philipp Schiemer, presidente da Mercedes-Benz no Brasil e vice-presidente da AHK (Câmara de Comércio Brasil-Alemanha).

De acordo com o levantamento da AHK, 93% dos entrevistados acham que a reforma da Previdência deve ter prioridade no governo. Além disso, 89% dos empresários consultados veem como positivo o impacto das eleições nos negócios de suas companhias.

Schiemer diz que uma vez resolvido o problema da Previdência, a confiança dos investidores começa a aparecer. “O caminho que o Brasil vai traçar é difícil. Não é nenhuma Autobahn (rodovia) alemã, sem obstáculos. Agora para avançar, é preciso resolver o problema fiscal.”

Pesquisa realizada pela câmara da Suécia, em parceria com a Llorente y Cuenca, segue na mesma linha. Aponta que 84% dos executivos de empresas associadas à entidade acreditam que o novo governo irá atrair investimentos.

“Esse otimismo está muito relacionado à reforma da Previdência. Mesmo que demore, o governo dá sinais ao mercado de que quer arrumar a economia que estava indo muito mal. É um sinal de governança”, afirma Jonas Lindström, diretor-executivo da Swedcham (Câmara de Comércio Sueco-Brasileira).

Para Lindström, a aprovação da reforma da Previdência é fundamental para que novas empresas venham para o Brasil. “Não se sabe se o governo vai entregar tudo o que está prometendo. Mas, se cumprir com certeza o interesse pelo país vai aumentar muito, principalmente de companhias menores.”

A credibilidade no governo também é percebida na avaliação dos franceses, aponta pesquisa da câmara da França em conjunto com a Ipsos. Com Bolsonaro, o grau de confiança no presidente brasileiro, subiu de 3,7 para 7,1, numa escala de 0 a 10.

Apesar do otimismo, 49% deles colocam a não aprovação da reforma da Previdência como o principal risco aos seus negócios.

“Todo mundo sabe que sem a reforma o Brasil vai bater na parede. Sabemos que ela não vai mudar nossas vendas e nossos lucros em 2019, mas dá confiança para investir. Temos vários projetos que estão na mesa, mas que seguramos para ver como as coisas vão caminhar”, diz Thierry Fournier, presidente-executivo da Saint Gobain na América Latina e presidente da CCIFB (Câmara de Comércio França-Brasil).

Também em parceria com a Llorente y Cuenca, a câmara espanhola mostra que a reforma previdenciária é uma preocupação para os executivos. Para 66% dos entrevistados, o tema deve ser tratado como prioridade.

Outras câmaras corroboram essa percepção. Em fevereiro, a Britcham (Câmara de Comércio Britânica) realizou um evento em parceria com a consultoria Control Risks para apresentar riscos políticos, de ética e de segurança para apresentar riscos políticos, de ética e de segurança para empresas ao redor do mundo.

Na palestra, Thomas Favaro, diretor de análise de riscos da consultoria explicou que desde a campanha eleitoral ficou claro que há apoio político para aprovar mudanças na aposentadoria, mas que a tramitação do projeto só deve ser concluída no final do ano.

Domenico Rossini, presidente da Câmara Ítalo-Brasileira, tem uma visão um pouco diferente da maioria. Avalia que o momento certo para investir no Brasil é agora, antes da reforma ser aprovada e com o câmbio desfavorável para o real. “Já no momento em que a reforma da Previdência passa, comprar ou começar uma empresa por aqui fica mais caro.”

Além disso, Rossini afirmou que os países europeus estão vivendo uma desaceleração econômica, que faz os empresários desses países olharem mais para fora daquele continente.

Apesar disso, Thierry, da câmara francesa, faz a ressalva de que o Brasil não é mais a estrela dos países emergentes que foi há 10 anos. “Hoje temos a Indonésia, Vietnã e o Mexico. Ou seja, o Brasil não está mais sozinho.”

 

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