Mulheres na liderança: nossa segunda entrevistada revela os desafios e as aspirações nas áreas de Pesquisa e Ensino

Confira a entrevista com a PhD em Química, Docente e Pesquisadora Joana D’Arc Félix de Sousa

 

Ações colaborativas entre setor produtivo, instituições de ensino e poder público são catalisadoras de transformações efetivas na sociedade. Para refletir sobre a importância da pesquisa e educação em prol de mudanças, entrevistamos para nossa série especial “Mulheres na liderança: iniciativas para sociedades inclusivas, inovadoras e sustentáveis” a Química, Professora Doutora e Pesquisadora, Joana D’Arc Félix de Sousa.

Determinação, resiliência e liderança definitivamente fazem parte de seu percurso. Nascida em Franca, interior de São Paulo, Joana percebeu desde muito cedo que teria grandes obstáculos à frente para conquistar seus projetos e sonhos. A mãe, empregada doméstica, e o pai, funcionário de um curtume na cidade, sempre a incentivaram em seus estudos, e encorajaram a mudar a realidade a sua volta por meio da ciência e educação. Com apenas 14 anos, ela passou em três vestibulares. Optou por estudar na Unicamp, em Campinas, e aos 25 anos já era PhD em Química pela Universidade de Harvard. Hoje, coordena pesquisas científicas na Escola Técnica Estadual de Franca, onde é professora e coordenadora do curso técnico de curtimento. Trabalha em cooperação com estudantes de iniciação científica, com os quais compartilha um pouco de sua experiência, e incentiva-os a persistirem diante de dificuldades. Com eles, registrou cerca de 15 patentes nacionais e internacionais. Ao todo, acumula 82 prêmios nas áreas de Química e Sustentabilidade.

 

 

Confira a entrevista:

 

1. O tema definido pela ONU Mulheres para o Dia Internacional das Mulheres em 2019 é: “Pensemos em igualdade, construção das mudanças com inteligência e inovação” (« Penser équitablement, bâtir intelligemment, innover pour le changement »). Esse tema dialoga com eixos estratégicos de atuação da CCI França-Brasi: Inovação, Responsabilidade Social Empresarial e Sustentabilidade.  Nesse contexto, qual o seu entendimento com relação às instituições de ensino e pesquisa em termos de princípios e ações?

Ainda existe um abismo muito grande entre as instituições de ensino e pesquisa e a sociedade. As barreiras que separam a ciência das pessoas devem ser quebradas e o conhecimento tem que ser expandido para a sociedade através da educação científica, que deveria ter início no ensino fundamental. O incentivo à pesquisa científica ajuda a despertar nas crianças e nos jovens, o interesse pelo ensino, aumentando a sua autoestima e estimulando a criatividade, a inovação e o empreendedorismo, além de reduzir a evasão escolar. Assim, os jovens adquirem segurança e discernimento para decidirem o seu futuro.

A educação científica é um dos melhores caminhos para o empoderamento de crianças e jovens, porque através dela formaremos homens e mulheres conscientes e inovadores, que além de levarem informações para suas respectivas famílias, ainda contribuirão para a formação de uma sociedade mais igualitária.

Somente por meio da educação com ciência, é possível alcançar uma transformação social efetiva. É possível e podemos conectar ciência e pessoas comuns.

 

2. Quais são os principais desafios, pontos críticos ou gargalos na construção dessas mudanças; e que oportunidades se abrem para promoção de sociedades paritárias, inclusivas e inovadoras, associando setor produtivo e autoridades públicas/institucionais?

Um dos principais desafios na construção dessas mudanças é o investimento na educação pública de qualidade. Educação de qualidade requer um mínimo de infraestrutura e elementos pedagógicos que apenas são possíveis mediante recursos financeiros. Outro grande desafio seria o investimento na educação científica, que se praticado desde a infância torna-se peça-chave para a construção de uma sociedade democrática, economicamente produtiva, mais humana e sustentável. Por isso, me interessei pela orientação de jovens da educação básica, porque acho que o estímulo à ciência deve começar bem cedo, para gerar frutos durante muitos anos. Os trabalhos de iniciação científica na educação básica desenvolvem pensamento lógico no jovem, que vai ser utilizado durante toda a sua formação.

A educação é o caminho para a construção de um mundo melhor, pois é na educação básica que a criança/jovem adquire algumas características fundamentais para sua vida profissional. Para isso, o interesse do jovem pelos estudos tem que ser aguçado no ensino fundamental, o que infelizmente não acontece no tratamento dado às minorias. Com essa diferença de tratamento, o jovem sem perspectiva, acaba achando que o caminho do crime é a maneira mais fácil de ganhar dinheiro.

Os jovens que desenvolvem iniciação científica na educação básica são termômetros muito importantes da qualidade do curso e do desempenho dos professores, ou seja, são excelentes cooperadores do próprio modelo pedagógico.

A inclusão de jovens da educação básica em atividades de iniciação científica a partir de projetos de pesquisa é uma forma de desenvolver nestes, algumas características fundamentais para sua vida profissional, seja ela voltada para a indústria, ou para a academia. Teremos cidadãos mais críticos e mais conscientes. Tenho muita esperança no Brasil, e acredito na valorização da escola pública.

 

3. Aspirações são projeções de transformação positiva, e atuam como motores de motivação e engajamento. Quais seriam as 3 palavras-chave que escolheria para traduzir suas aspirações nesse Dia Internacional das Mulheres?

Superação, Inovação e Respeito.

 

Joana D’Arc Félix de Sousa é PhD em Química pela Universidade de Harvard. É pesquisadora e docente na Escola Técnica Estadual de Franca.

 

(Foto: Inventivo Coletivo)

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