Stéphane Engelhard: Empresas francesas não devem deixar Brasil por crise do Coronavírus

Por Eduardo Gayer

São Paulo, 30/05/2020 – A crise econômica em decorrência do novo coronavírus não deve ser suficiente para que empresas francesas deixem de atuar no Brasil, disse ao Broadcast o presidente da Câmara de Comércio França-Brasil (CCFB) e vice-presidente de relações institucionais do Carrefour, Stéphane Engelhard. Embora reconheça que a iminente recessão trará mudanças profundas nos mais diferentes setores – com direito a “quebradeira” em muitos deles – Engelhard avalia que as companhias francesas estão bem instaladas no País e, por isso, não devem deixá-lo, ainda que em um cenário desafiador.

Hoje, todas as empresas listadas no CAC 40, o principal índice da Bolsa de Paris, mantêm atividades do Brasil. Entre elas estão Carrefour, Total, Accor, Société Générale e Engie, esta última também negociada na B3. “Os franceses, no ano passado, foram os principais investidores estrangeiros no Brasil”, conta o presidente da CCFB. “É uma relação muito forte e de longa data. Então não existe a intenção de deixarmos o Brasil, porque acreditamos nele”, completa. Ele lembra que nem mesmo a rusga diplomática entre os presidentes Jair Bolsonaro e Emmanuel Macron, no ano passado, foi suficiente para afastar as nações. “Os presidentes estão aqui de passagem, nós estamos para ficar”.

Engelhard diz que a situação econômica está se agravando no Brasil, mas elogia os planos de auxílio a trabalhadores do governo federal. E faz uma previsão para o “pós-pandemia”: “vamos ter uma mudança cultural importante”. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Broadcast: A crise econômica que se anuncia pode ser uma das maiores da história e as empresas francesas no Brasil, grupo que você representa, também serão prejudicadas. Qual o risco de que a readequação do mercado, nesse contexto, leve essas empresas a deixarem o País? Como avalia o atual momento?

Engelhard: Eu nunca ouvi de nenhum empresário francês no Brasil a ideia de deixar o País. Pode ter um caso ou outro de empresa que vai quebrar, é provável que aconteça. Mas é uma relação muito forte e de longa data [entre Brasil e França]. Esse casamento é quase impossível de destruir, nem a política conseguiu isso no ano passado. Os presidentes estão aqui de passagem, nós estamos para ficar. Então não existe a intenção de deixarmos o Brasil, porque acreditamos nele. Mesmo assim, a maior parte das empresas [associadas à Câmara de comércio] está em situação de queda de atividade. Todo mundo sabe que teremos um ano extremamente complicado, 2020 será difícil em todos os países em que atuamos.

Broadcast: Com qual cenário base para o Brasil as empresas francesas trabalham, neste momento?

Engelhard: Ainda estamos fazendo levantamento de dados. Vemos muitas previsões, mas nossa visão é que o PIB brasileiro deve cair mais de 3%. Tudo indica que esse segundo trimestre será muito ruim. Agora, se a crise não se estender pro segundo semestre, o que é possível, o final do terceiro trimestre já deve trazer certa normalidade e a queda do PIB não deve passar de 5%. O governo federal tomou medidas boas, isso é inegável. Elas são suficientes? A curto prazo, sem dúvida. Depois disso é difícil dizer. Os planos de ajuda a trabalhadores por três meses, por exemplo, são fantásticos. Mas e se a pandemia durar mais? O governo vai ter que esticar o plano, e isso afunda mais as contas públicas. Mesmo assim, o isolamento social é importante e necessário.

Broadcast: E o que as empresas francesas têm feito para amenizar os impactos da crise?

Engelhard: O momento agora é complicado, boa parte das nossas empresas está parada ou funcionando de forma mais devagar, exceto atividades essenciais, como é o caso do Carrefour. As empresas estão em dificuldades de caixa. A grande questão é que não temos visibilidade de até quando vai essa pandemia. Existem os planos do governo federal para as empresas, porém a burocracia complica e, às vezes, [a liquidez] demora para chegar na ponta. É preciso cortar custos, mas não há uma empresa francesa associada que tenha reduzido o quadro por conta do coronavírus.

Broadcast: Como sair dessa? Quando a crise passar, o que fica?

Engelhard: É possível, sim, sair da crise, mas vamos ter de nos reinventar. Na quarentena, os pedidos de alimentos do Carrefour já triplicaram e a tendência continua, porque as pessoas têm medo de ir à loja física. Então isso vai mudar o comportamento do consumidor. Tudo o que é e-commerce deve crescer. O home office também deve ficar. Com certeza vamos flexibilizar os contratos e as pessoas quiserem poderão ficar mais em casa. Surgem oportunidades nas formas de trabalhar e de olhar os nossos negócios. Vamos ter uma mudança cultural importante.

Contato: eduardo.gayer@estadao.com

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