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Airbus aposta em motor a hidrogênio e acelera corrida pela aviação limpa

Empresa lança joint venture com a alemã MTU e concentra esforços em tecnologia elétrica movida a hidrogênio
A Airbus dará um passo inédito em sua história ao entrar no desenvolvimento de motores aeronáuticos — e na aviação limpa.
A fabricante europeia anunciou uma joint venture com a alemã MTU Aero Engines para criar um sistema de propulsão movido por hidrogênio, iniciativa que reforça a estratégia da companhia para competir com Estados Unidos e China na corrida pela descarbonização da aviação.
O acordo prevê a criação de uma empresa dedicada ao desenvolvimento de motores baseados em células de combustível de hidrogênio, tecnologia que gera eletricidade por meio de uma reação eletroquímica para alimentar motores elétricos. Segundo Bruno Fichefeux, diretor de programas futuros da Airbus, a nova companhia será, "em termos simples", a fabricante de motores a hidrogênio do grupo.
A expectativa é que a joint venture entre em operação no início de 2027. De acordo com apuração da Financial Times, a Airbus ficará com cerca de 75% da participação, enquanto a MTU deterá os 25% restantes. A operação pode superar € 1,2 bilhão em valor, embora estrutura, localização e avaliação ainda estejam em definição.
Para a Airbus, o projeto vai além do desenvolvimento de uma nova tecnologia. A empresa afirma que o objetivo é garantir a chamada "soberania europeia" em um segmento considerado estratégico para o futuro da aviação.
"Queremos permanecer à frente. Para isso, precisamos de escala e dos melhores atores trabalhando juntos", disse Fichefeux ao Financial Times, citando a concorrência de empresas chinesas e startups norte-americanas.
O que é o motor a hidrogênio desenvolvido pela Airbus
Há duas principais abordagens para utilizar hidrogênio na aviação. A primeira adapta motores a jato convencionais para queimar hidrogênio em substituição ao querosene de aviação.
A segunda, adotada pela Airbus, utiliza células de combustível que transformam hidrogênio e oxigênio em eletricidade por meio de uma reação eletroquímica, sem combustão.
Nesse sistema, o hidrogênio armazenado na aeronave é enviado à célula de combustível. A reação com o oxigênio do ar gera eletricidade, que alimenta um motor elétrico responsável por movimentar a hélice da aeronave. O único subproduto direto do processo é água, normalmente liberada na forma de vapor.
Esse tipo de propulsão elimina durante o voo as emissões de dióxido de carbono (CO₂) e de óxidos de nitrogênio (NOx), dois dos principais poluentes associados à aviação.
Isso não significa, porém, que toda a cadeia seja necessariamente livre de carbono. O impacto climático dependerá da origem do hidrogênio utilizado.
Quando produzido por eletrólise com energia renovável — o chamado hidrogênio verde —, as emissões ao longo do ciclo tendem a ser próximas de zero.
Já quando o combustível é obtido a partir de gás natural sem captura de carbono, processo conhecido como produção de hidrogênio cinza, parte das emissões ocorre antes mesmo do abastecimento da aeronave.
Mudança na cadeia da aviação
A decisão representa uma ruptura com uma prática consolidada no setor aeronáutico. Historicamente, fabricantes de aeronaves como Airbus e Boeing desenvolvem os aviões, enquanto empresas especializadas, como Rolls-Royce, GE Aerospace e Pratt & Whitney, fornecem os motores.
Embora a Airbus já desenvolvesse pesquisas em propulsão, esta será sua primeira atuação direta como fabricante de motores aeronáuticos.
Segundo Fichefeux, a companhia não pretende competir no mercado de turbinas convencionais utilizadas atualmente pela aviação comercial. O foco permanece em tecnologias consideradas disruptivas, especialmente sistemas totalmente elétricos baseados em células de combustível.
Hidrogênio segue como aposta
O anúncio ocorre pouco mais de um ano após a Airbus rever seu cronograma para lançar uma aeronave comercial movida a hidrogênio.
Em 2025, a empresa reconheceu que dificuldades técnicas e o lento desenvolvimento da infraestruturanecessária para produção, distribuição e abastecimento de hidrogênio tornavam inviável cumprir a meta anterior de colocar a aeronave em operação até 2035. O projeto foi adiado para a década de 2040.
A revisão levou a Airbus a reduzir investimentos no programa e redistribuir equipes de engenharia, que voltaram a estudar diferentes conceitos tecnológicos.
Segundo a companhia, o tempo adicional permitiu concentrar esforços justamente na alternativa considerada mais promissora: um sistema totalmente elétrico baseado em células de combustível de hidrogênio, que tem como única emissão direta vapor d'água.
A joint venture com a MTU será responsável pelo desenvolvimento, testes e certificação desse sistema de propulsão, que poderá equipar futuras aeronaves comerciais.
Em conceitos apresentados anteriormente pela Airbus, a tecnologia foi projetada para aviões de até 100 passageiros, com autonomia de aproximadamente 1.000 milhas náuticas (cerca de 1.850 quilômetros).
Ainda assim, a empresa reconhece que o sucesso da tecnologia depende não apenas da evolução dos motores, mas também da disponibilidade de hidrogênio em larga escala e da construção da infraestrutura necessária para abastecimento das futuras aeronaves.
Estratégia industrial europeia
A parceria com a MTU faz parte de um movimento mais amplo da Airbus para fortalecer cadeias industriais na Europa em áreas estratégicas.
A fabricante também negocia a integração de parte de seus negócios espaciais com as companhias Leonardo e Thales para ampliar a competitividade frente a grupos como a SpaceX, do bilionário Elon Musk.
Na avaliação da MTU, a joint venture representa um passo decisivo para o desenvolvimento do primeiro sistema de propulsão aeronáutica baseado em células de combustível de hidrogênio e reforça a ambição de manter essa tecnologia sob liderança europeia.
Fonte: https://exame.com/esg/airbus-aposta-em-motor-a-hidrogenio-e-acelera-corrida-pela-aviacao-limpa/