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Alstom completa 70 anos no Brasil, lança relatório e reforça papel global do País

Relatório dimensiona a presença da companhia na mobilidade ferroviária brasileira e consolida o País como hub de exportação e centro de engenharia
A Alstom completou 70 anos de presença no Brasil e escolheu a data para lançar seu primeiro Relatório de Impacto no País, documento que compila indicadores econômicos, sociais e ambientais relativos ao ano fiscal 2024/2025 e revisita a trajetória da empresa desde 1955. Na prática, o relatório busca transformar em métricas o que, por décadas, esteve diluído na infraestrutura cotidiana das grandes cidades: segundo o levantamento, a tecnologia da companhia está presente em 81% do transporte ferroviário de passageiros no Brasil, sustentando a mobilidade de mais de 6 milhões de pessoas por dia.
“A tecnologia da Alstom garante a mobilidade de mais de 6 milhões de passageiros por dia no Brasil. Atualmente, contamos com aproximadamente 1,5 mil funcionários diretos e outros 4,5 mil indiretos atuando na produção de trens, componentes e sistemas de sinalização para o Brasil e para o mundo”, afirmou Suely Sola, diretora-geral da Alstom Brasil e de Sinalização e Infraestrutura da Alstom na América Latina, em entrevista ao BRAZIL ECONOMY.
O documento aponta que, no último ano fiscal, a atuação da Alstom teve contribuição equivalente a R$ 763 milhões para o PIB brasileiro, sendo R$ 600 milhões associados a impactos indiretos gerados pela cadeia de suprimentos. A companhia opera com uma base de 606 fornecedores nacionais e que 78% das compras realizadas no Brasil são feitas localmente, movimento que, segundo o relatório, injetou € 144 milhões na economia e fortaleceu o ecossistema industrial.
Ao fazer um balanço de 2025, Suely descreveu um cenário de investimentos em infraestrutura abaixo do que parte do mercado projetava, especialmente diante da expectativa de aceleração do PAC e de novos projetos metroferroviários em diversas regiões. Ainda assim, a executiva afirma que o ano foi marcado por concessões e decisões relevantes, com forte concentração no Estado de São Paulo. “Durante o ano de 2025, os maiores investimentos ocorreram efetivamente no Estado de São Paulo, no governo do Tarcísio de Freitas. Houve um processo de concessões ao longo do ano e o PAC não teve tantos investimentos quanto imaginávamos”, disse.
De acordo com ela, além de movimentos no eixo paulista, um estudo do BNDES avaliou projetos de infraestrutura passíveis de financiamento e mapeou oportunidades em capitais com potencial de expansão metroferroviária, o que pode destravar iniciativas a partir de 2026.
No recorte de mobilidade, a Alstom pega carona na continuidade de projetos ligados às linhas 8 e 9 (trens e sinalização), o pipeline relacionado à Linha 6-Laranja, além de agendas associadas a concessões e renovações de linhas que compõem o mosaico do sistema metropolitano paulista.
Atualmente, cerca de 50% do pipeline da companhia está atrelado ao Estado de São Paulo, reflexo do volume de projetos em execução ou em perspectiva. A executiva, no entanto, destaca que a fotografia da operação brasileira não se resume ao mercado doméstico: parte relevante do portfólio atual envolve fabricação e engenharia para contratos internacionais.
Brasil como plataforma de exportação e engenharia regional
Segundo Suely, a operação no País sustenta dois polos considerados estratégicos dentro da multinacional: a planta de Taubaté, em São Paulo, dedicada à produção de carros de passageiros (popularmente conhecido como vagão de trem), e a unidade de sinalização na região da Água Branca, também na capital paulista. Para a executiva, esses ativos dão ao Brasil uma dupla função: atender demandas locais e operar como plataforma de exportação, principalmente em projetos que exigem padrões industriais e de engenharia compatíveis com mercados internacionais.
“O Brasil tem dois centros de excelência. Somos centro de excelência de fabricação de carros de passageiros em aço inox. Isso quer dizer que não fabricamos só para o mercado nacional; exportamos daqui para outros continentes”, afirmou.
A executiva afirma que, neste momento, a companhia está envolvida na fabricação de projetos destinados a Taiwan e à Romênia, além de contratos para o Brasil e Chile. “Hoje temos o último trem de Bucareste para sair, o projeto da Linha 6 em andamento, a Linha 7 de Santiago em execução e estamos iniciando o Taipei Circle Line”, destacou.
No campo de sinalização e infraestrutura, Suely diz que a organização regional dificulta a separação pura entre “Brasil” e “América Latina” em termos de resultados, já que o País abriga equipes e plataformas que atuam em múltiplos projetos. “A engenharia de sinalização atende aos projetos da América Latina. Todos têm parte do escopo desenvolvido no Brasil”, disse.
Como exemplo, há o Tren Maya, no México, um projeto de cerca de 1.200 km que atravessa a Península de Yucatán, com diferentes categorias de serviço. Segundo a executiva, parte do desenvolvimento de sinalização (incluindo engenharia, testes e virtualização de sistemas) ocorre em São Paulo, em conjunto com equipes na Europa.
A decisão de produzir um relatório específico para o Brasil partiu da matriz, que já vinha consolidando relatórios de impacto em outros países. De acordo com Suely, a combinação de sete décadas de presença local com o contexto de agenda climática e mobilidade sustentável colocou o País no radar corporativo para receber o estudo.
“Representa a relevância estratégica do País não só para a América Latina, mas para a empresa globalmente”, disse, ao comentar o significado interno da escolha.
O que mais chamou atenção no levantamento, segundo ela, foi a dimensão da participação da empresa na malha de passageiros e o efeito indireto sobre empregos. “O percentual de participação no transporte metroferroviário nacional, ter 81% de quilômetros de linhas com nossas soluções, é um marco impressionante. E o número de empregos diretos e indiretos, considerando toda a cadeia de fornecedores locais, também é muito relevante”, afirmou.
A executiva relembra que, ao apresentar os dados a colaboradores no fim de 2025, recebeu retorno imediato sobre o grau de desconhecimento interno a respeito da escala do que a companhia representa no setor. “Muitos disseram: ‘eu não sabia que a nossa empresa tinha tanta influência’, ‘que orgulho’”, disse.
VLT do Rio e Linha 6: impactos de tempo, qualidade de vida e emissões
Suely conecta os indicadores do relatório à experiência do passageiro. Ela cita o VLT do Rio de Janeiro, produzido pela empresa, como um projeto emblemático, tanto pela engenharia quanto pelo efeito urbano. Segundo a executiva, o VLT do Rio foi fabricado integralmente pela companhia e teve um sistema livre de catenária, com alimentação elétrica pelo solo, reduzindo interferências visuais em regiões centrais. “É um projeto muito bonito, até em termos de arquitetura. E beneficia em torno de 120 mil pessoas por dia”, afirmou.
Outro exemplo é a Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo, para a qual a planta de Taubaté produz trens. Suely afirma, como referência de impacto potencial, a redução do tempo de deslocamento prevista em estudos de viabilidade: trajetos que hoje podem levar cerca de 90 a 100 minutos tenderiam a cair para aproximadamente 30 minutos quando o sistema estiver plenamente em operação. “Esse tipo de ganho tem efeitos que vão além do transporte. Qualidade de vida, tempo com a família, menos trânsito, menos emissões”, resumiu.
Inaugurada em 2015, a fábrica da Alstom em Taubaté se tornou pilar industrial da operação. O relatório aponta que a unidade recebeu R$ 130 milhões em investimentos nos últimos anos e é considerada um centro de excelência na produção de carros de passageiros em aço inoxidável. Suely acrescenta que a planta foi desenhada para sustentar múltiplos projetos em paralelo, com diferentes fases de engenharia, produção e testes.
“Fizemos os investimentos fortes nos últimos cinco anos. Hoje os investimentos são mais focados em manutenção e atualização de máquinas”, disse. A fábrica opera em dois turnos, com capacidade para conduzir diversos projetos simultaneamente, em diferentes estágios.
A empresa destaca projetos recentes produzidos ou em produção em Taubaté, como fornecimentos para as Linhas 8 e 9 (36 trens), Linha 6-Laranja (22 trens), Linha 7 do Metrô de Santiago (37 trens), além de contratos para Taiwan e Romênia. O documento também cita a produção de 27 carros Citadis para o VLT do Rio, destacando o sistema livre de catenária.
“Nosso parque industrial é um ativo estratégico para o Brasil. Temos capacidade para atender à demanda local e, ao mesmo tempo, contribuir com soluções de mobilidade em diversas partes do mundo”, afirmou Suely.
Concessões, consórcios e a disputa com players chineses
Sobre crescimento e ampliação da presença no Brasil, Suely evita projeções fechadas e aponta que a dinâmica de concessões é determinante, inclusive porque os projetos são disputados por consórcios e não por empresas isoladas. Segundo ela, participações recentes ocorreram em ambiente competitivo e, em alguns casos, o consórcio do qual a companhia fazia parte não saiu vencedor.
A executiva reconhece o avanço de competidores chineses na infraestrutura latino-americana e no Brasil, tema que tem ganhado peso em licitações e projetos estruturantes. Mas, para ela, a competição é saudável, desde que acompanhada por isonomia regulatória e tributária.
“Eu não vejo com maus olhos nenhum tipo de competição. O que eu prezo é por condições equivalentes, por competição justa. Nós estamos aqui há 70 anos e temos uma cadeia de impostos e obrigações quando estamos localizados. O importante é que tudo o que venha de fora passe por processo equivalente”, afirmou.
Sustentabilidade e a agenda climática no centro do discurso
No recorte ambiental, o relatório reforça o discurso de mobilidade sustentável e aponta que a companhia mantém indicadores estruturados de gestão ambiental em seus polos de Água Branca e Taubaté, monitorando consumo de energia, emissões de CO₂, reciclagem e uso de energias renováveis.
A empresa também associa o relatório brasileiro a uma estratégia global iniciada em relatórios de outros países e à agenda internacional do clima. No release, a Alstom afirma que patrocinou o primeiro “Pavilhão de Transportes” na COP30, em Belém, em parceria com a SLOCAT, e que a mobilidade de baixo carbono segue como uma das frentes de posicionamento institucional.
Ao consolidar números, cadeia produtiva e base instalada, a Alstom tenta traduzir em métricas uma tese estratégica: o Brasil é, ao mesmo tempo, mercado final, plataforma industrial e centro de engenharia. E, no entendimento da presidência local, os próximos capítulos dependerão do ritmo de concessões, de financiamento e da capacidade do País de dar previsibilidade a um ciclo de infraestrutura que, para o setor, ainda está em fase de construção.