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Câmara de Comércio: Acordo Mercosul-UE abrirá portas para PMEs francesas no Brasil

Presidente da CCIFB-SP, Thierry Besse, vê oportunidade de facilitação de internacionalização das companhias francesas de menor porte

Mesmo diante da oposição da França, o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia deve beneficiar o país para além da melhoria dos fluxos comerciais. A abertura do Brasil via exportações deve abrir caminho para uma posterior entrada de pequenas e médias empresas francesas no mercado regional, avalia o presidente da Câmara de Comércio França Brasil, Thierry Besse, em entrevista ao InfoMoney.

Sua avaliação é a de que o acordo resolveria um paradoxo das relações comerciais entre França e Brasil, uma vez que, apesar do investimento relevante de empresas francesas no País, o fluxo comercial ainda é baixo, de cerca de 8 bilhões de euros em 2024.

A Câmara de Comércio é uma associação de representação de empresas francesas e brasileiras junto às instituições nacionais.

“O setor de laticínios, queijos, todos esses produtos agroindustriais de alto valor agregado terão mais facilidade em adentrar o mercado brasileiro. Também todo o setor industrial, seja indústria de ponta, setor aeronáutico particular”, diz Besse. “Dezenas de milhares de pequenas e médias empresas, que naturalmente têm mais dificuldade em se internacionalizar, poderão aproveitar essa nova oportunidade”

Para Besse, a abertura do mercado brasileiro, o mais fechado do G20, estabelece as bases para que empresas, em um primeiro momento, exportem seus produtos até formarem bases sólidas o suficiente para decidir, eventualmente, iniciar uma operação no Brasil.

Devido ao número de varejistas francesas no Brasil — intensivas em mão de obra –, as empresas do país europeu são as maiores empregadoras estrangeiras no Brasil com 500 mil empregados, segundo a Câmara de Comércio França Brasil. Em 2024 eram 1,3 mil filiais estabelecidas no País, com faturamento de cerca de R$ 400 bilhões.

O governo francês deu um voto contrário à assinatura do tratado diante da pressão do agronegócio sobre o presidente Emmanuel Macron. “Vejo isso como uma questão de política interna da França, que infelizmente gerou uma leitura irracional do acordo no curto prazo. A França vive um momento político desafiador, mas nós trabalhamos no sentido contrário, celebrando a ratificação”, afirma Bresse.

“O nosso papel é de representação, de atuação junto às instituições brasileiras, para dar essa visibilidade de investimentos franceses e para todas as empresas francesas que ainda não estão presentes no país, e acho que com o advento desse acordo esperamos ver muito mais empresas francesas se interessar pelo mercado brasileiro.”

 

Leia abaixo a entrevista:

InfoMoney: Como o acordo firmado entre União Europeia e Mercosul deve impactar as relações comerciais, especialmente entre Brasil e França?

Thierry Besse: Nós somos entusiastas dessa integração e, portanto, entusiastas da ratificação deste acordo. Então, como eu mencionei, a França tem um histórico muito forte de investimento aqui no país, um estoque em 2024 de 70 bilhões de euros [cerca de R$ 437 bilhões]. E, paradoxalmente, os fluxos comerciais de importação e exportação entre os dois países ainda são tímidos, de 8 bilhões de euros [R$ 50 bilhões] em 2024.

IM: Que expectativas é possível ter sobre essa mudança no fluxo comercial?

TB: Da França para o Brasil, o setor de bebidas: vinhos, espumantes, champanhe, certamente será beneficiado e é entusiasta. O setor de laticínios, queijos, todos esses produtos agroindustriais de alto valor agregado terão mais facilidade em adentrar o mercado brasileiro. Também todo o setor industrial, seja indústria de ponta, setor aeronáutico particular.

As grandes companhias já estão no Brasil, mas dezenas de milhares de pequenas e médias empresas, que naturalmente têm mais dificuldade em se internacionalizar, poderão aproveitar essa nova oportunidade. O Brasil é o país mais fechado comercialmente do G20. O acordo de livre comércio com o Brasil é algo relevante e que coloca a Europa numa posição vantajosa em relação aos Estados Unidos e a China.

IM: No sentido oposto, quais exportações brasileiras para a França devem aumentar?

TB: O agronegócio brasileiro é tão competitivo que já consegue exportar para a Europa, apesar das barreiras comerciais. Esse fluxo deve se intensificar. A indústria brasileira também.

IM: Em termos práticos, como o acordo facilita a instalação de empresas francesas no Brasil?

TB: Muitas empresas não decidem do dia para a noite se estabelecer em um país. Primeiro, ela tenta acessar o mercado com exportações e, depois, a depender do desempenho do produto ou serviço, pode acabar decidindo estabelecer uma filial ou construir fábricas.

IM: A oposição da França ao acordo pode impactar essa potencial melhora nas relações comerciais promovidas pelo acordo?

TB: É uma questão de política interna e de curto prazo que, lamentavelmente, acabou degenerando para uma leitura irracional do acordo. O momento político da França é desafiador e, infelizmente, ela acabou se posicionando contra a ratificação desse acordo. Nós trabalhamos no sentido contrário, de celebrá-lo com entusiasmo porque temos convicção de que será benéfico tanto para a economia brasileira quanto para a economia francesa.

Fonte: https://www.infomoney.com.br/business/camara-de-comercio-acordo-mercosul-ue-abrira-portas-para-pmes-francesas-no-brasil/

 

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