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Câmara de Comércio França-Brasil (CCIFB) diz que tratado representa ganhos para ambos os lados

Tentar barrar acordo Mercosul-UE é ‘gol contra’, diz presidente da Câmara de Comércio França-Brasil de São Paulo

Apesar da resistência de setores da economia francesa, o acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia é visto com entusiasmo por empresas e investidores da França com atuação no Brasil, diz o presidente da Câmara de Comércio França-Brasil (CCIFB), Thierry Besse. Após 25 anos de negociações, o executivo afirma que barrar o acordo significaria desperdiçar uma chance única de ampliar mercados, fortalecer cadeias produtivas e reduzir a influência de outros competidores globais.

“A assinatura do acordo foi um ‘golaço’ da Europa aos 45 [minutos] do segundo tempo”, diz em entrevista ao Valor. Para Besse, trabalhar hoje contra a ratificação do tratado “é querer fazer um gol contra e entregar o jogo para a China”. Ele destaca que o tratado representa uma oportunidade histórica de integração econômica e estratégica entre dois blocos que compartilham valores e instituições, em um momento de crescente instabilidade global.

De acordo com o executivo, diversos segmentos franceses devem se beneficiar da entrada em vigor do acordo, como vinhos, champanhes e destilados, laticínios e produtos com denominação de origem controlada, além das indústrias aeronáutica, automobilística, farmacêutica e de energia - com destaque para as renováveis.

Assinado no sábado (17), no Paraguai, por representantes do bloco sul-americano e pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o acordo cria o maior mercado de livre-comércio do mundo, reunindo mais de 700 milhões de consumidores. São 32 países - 27 da União Europeia e cinco do Mercosul - que, juntos, somam um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 22 trilhões.

A despeito do otimismo do setor empresarial, o acordo sofreu reviravolta política na quarta-feira (21). O Parlamento Europeu aprovou uma revisão jurídica do tratado, o que pode congelar as tratativas por pelo menos dois anos. Foram 334 votos a favor, 324 contra e 11 abstenções. A decisão acatou resolução para submeter o texto ao Tribunal de Justiça da UE, que deve analisar a conformidade do pacto com as leis do bloco.

Para Besse, uma das formas de contornar as objeções é ampliar o debate na Europa em relação aos benefícios e oportunidades do acordo UE-Mercosul. “Os investidores e empreendedores europeus da região precisam ajudar a fazer pedagogia em seus países de origem. Somos testemunhas de que esta é uma terra de oportunidades”, afirma.

A França está no centro da resistência. O país já havia sido um dos cinco a votarem contra o acordo na Comissão Europeia, órgão executivo do bloco, e tem liderado a oposição a partir de pressões do agronegócio. Produtores franceses alegam concorrência desleal e desalinhamento de regras ambientais e sanitárias entre a União Europeia e o Mercosul. Entre os pontos levantados, estão, o uso de agrotóxicos proibidos na UE e regras consideradas mais flexíveis sobre ambiente e desmatamento. Ao seguir normas mais rígidas, a avaliação é que os produtos europeus ficariam mais caros e menos competitivos.

Besse reconhece que há preocupações legítimas, sobretudo no segmento de pecuária, mas avalia que o debate na França foi “sequestrado” por leituras que considera exageradas e pouco aderentes à realidade. “Infelizmente, nós acabamos degenerando para uma leitura irracional do acordo”, diz.

O mesmo ocorreu, diz, no acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Canadá, que também enfrentou resistência inicial de setores agrícolas franceses. “Dez anos depois, observamos que foi bom para todo mundo, os fluxos cresceram nos dois sentidos”, afirma. Para o presidente da CCIFB, a experiência canadense reforça a avaliação de que o acordo com o Mercosul tende a produzir ganhos amplos a médio e longo prazos, apesar das preocupações iniciais.

Besse observa que o acordo prevê salvaguardas importantes. A importação de carne bovina do Mercosul para a União Europeia estará limitada a uma cota anual de 99 mil toneladas, o que corresponde a cerca de 1,2% do consumo total de carne bovina do bloco europeu. “Não é do dia para a noite que metade da carne consumida na Europa vai ser substituída”, diz.

Entre os setores da economia francesa que devem ter benefícios imediatos, Besse cita a produção de vinhos, champanhes, destilados, laticínios e, de forma mais ampla, os produtos com denominação de origem controlada, que passarão a ter indicações protegidas no mercado sul-americano. Hoje, a França exporta cerca de 700 mil garrafas por ano de vinho e champanhe para o Brasil, volume que, segundo Besse, tende a crescer com a redução das tarifas. “O vinho francês vai poder competir em pé de igualdade com o argentino e o chileno.”

Na indústria, os ganhos esperados envolvem setores como aeronáutico, automobilístico, equipamentos elétricos, farmacêutico, cosméticos e beleza, além de infraestrutura e energia. No último caso, o executivo destaca o avanço das energias renováveis, área em que empresas francesas e europeias têm presença forte e crescente no Brasil, com atuação em energia eólica, solar, linhas de transmissão e usinas hidrelétricas.

Do ponto de vista empresarial, a presença francesa no Brasil é robusta. Segundo Besse, o investimento francês no país se dá por meio de cerca de 1.300 empresas, que faturaram mais de R$ 400 bilhões em 2024. Essas companhias empregam aproximadamente 560 mil pessoas, diz ele, o que faz da França o maior empregador estrangeiro no Brasil e o segundo maior investidor externo, atrás apenas dos Estados Unidos.

Apesar disso, o fluxo comercial bilateral ainda é considerado modesto. Em 2024, somou cerca de € 8 bilhões, montante relativamente equilibrado entre importações e exportações. Para Besse, o acordo abre uma “avenida” para a expansão desse comércio, sobretudo a médio prazo, já que a redução tarifária será gradual. Além das grandes multinacionais instaladas no país, o tratado tende a beneficiar pequenas e médias empresas francesas, que hoje enfrentam mais dificuldades para acessar o mercado brasileiro, indica o executivo.

Besse destaca ainda que o acordo é importante em um cenário global marcado pela fragilização do multilateralismo e pelo aumento das tensões comerciais, especialmente com os Estados Unidos. “A integração entre Europa e América do Sul se faz mais do que nunca necessária”, afirma. Para ele, trata-se de um jogo de “ganha-ganha” entre blocos que “jogam pelas mesmas regras”, capaz de fortalecer cadeias produtivas, diversificar parcerias comerciais e ampliar a prosperidade de ambos os lados.

Fonte: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/01/26/tentar-barrar-acordo-mercosul-ue-e-gol-contra-diz-frances.ghtml

 

 

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