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Revitalização do centro de São Paulo é tema de debate promovido pela Comissão do Setor Imobiliário

Encontro reuniu diferentes perspectivas sobre as transformações recentes do centro e os fatores que têm contribuído para a permanência na região

A Comissão do Setor Imobiliário da Câmara de Comércio França-Brasil (CCIFB) promoveu, no dia 6 de agosto, um debate sobre a revitalização do centro de São Paulo. O encontro reuniu especialistas do setor para discutir o potencial da região, os desafios do retrofit e a importância da integração entre poder público, comunidade e iniciativa privada para o desenvolvimento da área.

Mediado por Aloysio Felix, CEO da Triptyque Architecture, o painel contou com a participação de Pedro Martin Fernandes, presidente da SP Urbanismo, Maxime Barkatz, sócio-fundador da Illion Partners, e Marcone Moraes, fundador do Pró-Centro, vice-presidente do Instituto Cultural Galeria do Rock e sócio do Mundo Pão Olivier. A apresentação ficou a cargo de Cristiane de Paula, líder da Comissão do Setor Imobiliário.

Land banks ociosos e o potencial do centro

Um dos temas centrais do debate foi a grande quantidade de imóveis subutilizados na região central. Aloysio Felix abriu a discussão com uma comparação direta: “É como se você tivesse várias salas na sua casa, algumas ficam abandonadas”. Ele ressaltou que São Paulo tem “um dos maiores land banks abandonados” da cidade, com infraestrutura de água, esgoto e transporte já instalada, mas sem ocupação efetiva.

Apesar do cenário de imóveis ociosos, Maxime Barkatz trouxe um dado otimista: “Não há problema comercial, a demanda nunca para, principalmente no Centro Expandido”. Ele destacou que o Brasil é um país com alto grau de urbanização — “o continente sul-americano é um dos mais urbanizados do mundo, mais do que a Europa” — e que o poder público já demonstra vontade de atuar mais diretamente para trazer investimentos e pessoas de volta aos grandes centros urbanos.

Permanência: a palavra-chave da revitalização

Pedro Martin Fernandes apresentou um panorama das transformações recentes no centro. Ele mencionou o programa Requalifica Centro, lançado em 2022, que oferece incentivos fiscais para retrofit de edifícios e intervenções urbanas com áreas verdes. O programa já viabilizou a reforma de cerca de 50 prédios, o que representa aproximadamente 12 mil novos moradores na região.

Para Fernandes, o grande marco desse processo é a mudança de comportamento das pessoas. “A palavra-chave é permanência: as pessoas pararam de simplesmente usar o centro como área de passagem e começaram a ficar naquele espaço”, afirmou. Ele citou ainda outros projetos em andamento, como a Operação Delegada, que movimenta R$ 1,2 milhão por dia em investimentos, e o Smart Sampa, política de inteligência urbana voltada para a segurança e gestão da cidade.

O protagonismo da comunidade e a cultura do espaço público

Marcone Moraes trouxe uma perspectiva comunitária para o debate. Fundador do Pró-Centro e vice-presidente do Instituto Cultural Galeria do Rock, ele defendeu que as diretrizes para a revitalização precisam partir das comunidades locais, não apenas de entes políticos. “O brasileiro ainda tem dificuldade em reconhecer o espaço público, diferente do francês”, observou, estabelecendo um paralelo cultural entre os dois países.

Ele citou a Galeria do Rock como exemplo de revitalização bem-sucedida, com taxa de ocupação superior a 90%, e creditou a transformação recente do centro à existência de uma comunidade ativa, com foco em discussões fundamentais como segurança e investimento. Moraes também ressaltou que o brasileiro “perdeu a capacidade de se aglutinar, de viver em comunidade”, e que fortalecer lideranças no centro tem sido um movimento intensificado nos últimos anos.

Retrofit: faísca, mas não solução completa

O retrofit foi outro tema amplamente debatido. Maxime Barkatz alertou que a revitalização não é um consenso e que investir no centro envolve muitos stakeholders, o que pode afastar investidores. “Lidar com empreendimentos no centro significa mexer em lugares onde já há gente vivendo, isso apavora o investidor”, afirmou.

Ele classificou o retrofit como “a faísca da revitalização urbana”, mas ponderou que não é suficiente para resolver a questão completa da densidade habitacional. “Retrofit não é só pintar fachada e trocar esquadria. É bem mais que isso”, explicou. Barkatz destacou que São Paulo ainda precisa desenvolver melhor uma cultura de preservação — “nos próximos 30 anos isso vai ser muito mais forte” — e que, embora nem tudo possa ser reformado dessa forma, empreendedores mais jovens têm se atraído por projetos menores, nos quais a escalabilidade é desafiadora.

Marcone Moraes complementou: “O investidor ainda não tem tão claro o que é restauro, o que é reforma e o que é manutenção”, evidenciando a necessidade de maior clareza e educação do mercado sobre os diferentes tipos de intervenção.

O centro de São Paulo e o futuro da cidade

O debate também abordou a relação entre adensamento populacional e custo urbano. Pedro Martin Fernandes mencionou que há cerca de dois milhões de pessoas morando ao lado das represas Billings e Guarapiranga, o que gera uma pressão enorme sobre o sistema público. “Quanto custa ter gente morando tão longe do centro?”, questionou, defendendo a ocupação da região central como uma alternativa mais eficiente e sustentável.

Maxime Barkatz, por sua vez, ressaltou que o centro é “um dos únicos lugares de SP onde você de fato anda na rua” — uma qualidade que se torna cada vez mais rara na cidade. Sobre o conceito de “cidade de 15 minutos”, Pedro Martin Fernandes foi categórico: “SP nunca vai ser ‘cidade de 15 minutos’, não faz sentido aqui. Nem mesmo em Paris é ‘15 minutos’”.

 

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