São Paulo Comissões
Da ideação à prática, evento debate aspectos culturais para botar em prática a inovação em grandes empresas

Encontro promoveu palestras e uma dinâmica de grupo com a metodologia Ágora, da By Passeur
A missão de promover inovação em grandes empresas, tirá-la do papel e implementá-la de verdade na rotina corporativa no Brasil foi o foco do evento "Ágora Liderança e Inovação: Da Ideia à Adesão", realizado na terça-feira (6), na sede da CCIFB-SP. A mesa-redonda foi organizada pelas comissões de Comunicação & Marketing e de Tecnologia & Inovação da Câmara.
Com mediação de Noémie Philippe, fundadora e diretora da By Passeur, participaram do encontro Erika Barbat, gerente de Insights Integrados do Grupo Globo, Charlotte Guinet, Innovation Executive Manager na Edenred, e Jacques Kwangala Mboma, filósofo, pesquisador e docente em ética e alteridade, que debateu caminhos para a inclusão no mundo corporativo.
Erika Barbat, que lidera o hub de inovação da Globo, deu início às apresentações mostrando dados de dois estudos: Brasil no Espelho (2023) e Cultura no Espelho (2025). Com base nas informações exibidas, a palestrante defendeu que três constatações devem sempre orientar qualquer processo de inovação no Brasil: o fato de 97% dos brasileiros acreditarem em Deus; o reconhecimento de que 51% da força de trabalho no país relata estar cansada, ansiosa ou depressiva; e o baixo percentual, apenas 6%, de brasileiros que acreditam poder confiar na maioria das pessoas.
Ou seja, para Barbat, qualquer iniciativa que promova mudanças de cultura em uma empresa já parte, no Brasil, de um cenário muito difícil, que reúne crenças fortes com desconfiança e um sentimento generalizado de esgotamento.
Ainda de acordo com a executiva, saúde e família são as questões mais importantes para os brasileiros, enquanto trabalho e dinheiro aparecem apenas em sexto lugar. "O que mobiliza qualquer time é o cuidado de quem cuida dele, e não tanto o dinheiro, como se poderia pensar em uma análise mais apressada", afirmou.
Erika destacou circunstâncias que classificou como “atritos” para a inovação: uma delas é o cansaço generalizado, mais relatado por habitantes do Norte do país, e que se agrava entre quem precisa de renda extra: 52% desse estrato se declaram esgotados mental e fisicamente. Outra seria a sensação do brasileiro de que só pode contar consigo mesmo — não se trata do espírito de self-made man. “Aqui, o significado desse dado não é de sucesso por conta própria, mas sim uma sensação profunda de desamparo", explica. Por último, Barbat salientou a desconfiança descontrolada dos brasileiros: o país só perde para o Zimbábue em índices que estimam a confiança entre as pessoas, dado complementado pelo fato de dois terços da população brasileira terem relatado algum tipo de preconceito.
Para finalizar, a pesquisadora recorreu a Pierre Bourdieu para mostrar que a desigualdade cultural reproduz a economia. Destacou como a maior parte dos brasileiros têm baixo capital econômico e baixo capital cultural, cenário que se agrava em um país no qual se lê pouco. ”Como o repertório se constrói com acesso, a falta de repertório não deveria ser critério de seleção, mas de inclusão”, afirmou. “Se a renda não é uma variável tão simples de mudar, o acesso à cultura pode ser.”
Diversidade em empresas e dinâmica em grupo
Jacques Kwangala Mboma defendeu a diversidade como motor da inovação e alertou para o risco de buscar sempre os mesmos perfis, já que culturas diferentes geram inovação de verdade. Citou Rousseau, para lembrar que o ser humano nasce livre, mas acaba se prendendo ao longo da vida, e Foucault, para quem o poder circula nas relações do cotidiano. “Onde há poder, também há espaço para resistência", explicou. Desse raciocínio, extraiu quatro atitudes de liderança: guiar sem travar a liberdade, estimular pessoas de perfis diferentes, ser sincero e estar disposto a aderir a novas ideias. "Não existe receita única, mas ampliar as fontes de recrutamento é uma saída", afirmou, defendendo a criação de um espaço onde cada funcionário possa ser quem é. “A diversidade se desenvolve na empresa quando se troca o espelho pela janela, que mostra o mundo lá fora", disse.
Por fim, Charlotte Guinet avaliou que a diversidade é muito bem percebida no Brasil e apresentou os valores que orientam a Edenred no Brasl: espírito empreendedor, paixão pelo cliente e respeito. Para ela, o executivo precisa saber lidar com as ideias novas dos colaboradores mais jovens, pois em geral o motor da inovação vem do aporte que essas pessoas, ainda em formação de cultura corporativa, podem trazer. "A inovação vem da colaboração, nunca é um ato sozinho", concluiu.
Após as palestras, Noémie Philippe sugeriu aos participantes que integrassem uma dinâmica de grupo. Fundamentada na metodologia Ágora, palestrantes e presentes reuniram-se em três grupos, cada um deles dedicado a trocar experiências referentes a três eixos de inovação: federar, embarcar e incorporar. Após meia hora de debates, as conclusões foram compartilhadas por todos, encerrando o dia de atividades.
Confira aqui imagens do encontro!