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Entrevista ESG “O licenciamento ambiental não deve ser visto apenas como uma exigência legal, mas como uma oportunidade estratégica”

À frente da Tempesta Projetos, Paula Tempesta aborda como integrar ESG e estratégia empresarial de forma eficaz e sustentável.
Paula Tempesta é consultora ambiental com mais de 16 anos de experiência e bióloga formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com graduação também em Geociências pela USP. Mestre pela Université de Nantes, na França, possui MBA em Gestão Ambiental pela USP e especialização em ESG pela FGV. Fundadora da Tempesta Projetos, atua na formulação e implementação de estratégias socioambientais que integram conformidade regulatória, gestão de riscos e geração de valor sustentável. Sua trajetória combina sólida expertise técnica — em áreas como licenciamento ambiental, elaboração de estudos e relatórios técnicos e geoprocessamento (ArcGIS), com visão estratégica e perfil empreendedor.
Com atuação em articulações junto a órgãos ambientais e stakeholders, Paula busca assegurar a viabilidade e a legitimidade dos projetos em que está envolvida. Sua vivência internacional na França ampliou sua perspectiva interdisciplinar, com foco em bioeconomia, transição ecológica e nas melhores práticas globais em sustentabilidade.
1. Como surgiu a Tempesta Projetos e quais são as principais demandas das empresas quando se trata de meio ambiente e conformidade legal?
A Tempesta Projetos nasceu da percepção de que muitas empresas ainda enfrentam desafios significativos para atender às exigências legais ambientais e, ao mesmo tempo, incorporar esses compromissos à sua estratégia de negócios. Desde sua fundação, o foco tem sido apoiar organizações na jornada rumo à conformidade ambiental.
O licenciamento ambiental, instrumento fundamental da Política Nacional do Meio Ambiente, é um dos pilares dessa atuação. Exigido para atividades potencialmente poluidoras, ele demanda estudos técnicos que avaliem riscos, impactos e medidas de controle. A Tempesta Projetos atua não apenas na obtenção e renovação de licenças, mas também na adequação legal contínua e no fortalecimento da reputação institucional das empresas. Nos últimos anos, tem crescido a demanda por uma integração mais efetiva entre a gestão ambiental tradicional e os princípios ESG, com foco em transparência, indicadores e estratégias de longo prazo. Esse movimento reflete um cenário em que conformidade, sustentabilidade e competitividade caminham cada vez mais juntas.
2. De que forma a atuação em licenciamento ambiental contribui para fortalecer a governança corporativa e os pilares do ESG nas organizações?
Mais do que uma exigência legal, o licenciamento ambiental deve ser encarado como uma oportunidade estratégica para as empresas. Trata-se de um instrumento que, quando bem utilizado, permite estruturar políticas ambientais mais robustas, ao antecipar riscos, mapear impactos e promover ações preventivas e compensatórias de forma mais eficaz. Ao incorporar essa visão, as organizações conseguem alinhar conformidade e sustentabilidade, fortalecendo sua atuação no contexto da transição ecológica.
Conduzido de forma qualificada, o processo de licenciamento contribui diretamente para o fortalecimento dos pilares ESG, ao envolver diálogo com stakeholders, registro e rastreabilidade documental, compromissos ambientais claros e a implementação de medidas de controle. Integrado ao planejamento empresarial, esse processo amplia a reputação institucional, reduz passivos e demonstra o compromisso com a sustentabilidade de longo prazo. Ao estabelecer metas e indicadores associados ao licenciamento, as empresas ganham mais consistência na comunicação de seus avanços ambientais, mitigam riscos e reforçam sua credibilidade junto a investidores e à sociedade.
3. Quais desafios e oportunidades você enxerga hoje na implementação de boas práticas ambientais em setores como mineração, agronegócio e indústria?
Navegar pelo complexo e dinâmico arcabouço legal ambiental brasileiro continua sendo um dos principais desafios enfrentados pelas empresas. Com leis em constante atualização, como o Projeto de Lei nº 2.159/2021, que propõe mudanças significativas no processo de licenciamento ambiental, é fundamental manter atenção contínua, capacidade de adaptação e suporte técnico qualificado para garantir a conformidade e evitar riscos regulatórios. Além das exigências legais, muitas organizações ainda lidam com obstáculos operacionais, como a dificuldade em integrar os aspectos ambientais à tomada de decisão estratégica, seja por falta de dados, desconhecimento técnico ou ausência de uma cultura voltada à sustentabilidade.
Por outro lado, o cenário atual oferece oportunidades relevantes. O avanço da agenda ESG e a crescente demanda por transparência têm impulsionado empresas que adotam compromissos ambientais realistas e consistentes. Há espaço para organizações que investem em soluções inovadoras, promovem a melhoria contínua de suas práticas e valorizam o diálogo com a sociedade. O verdadeiro diferencial está em ultrapassar a lógica da simples conformidade legal, enxergando a sustentabilidade como uma alavanca estratégica para eficiência operacional, reputação institucional e acesso a novos mercados.
4. Há espaço para parcerias com empresas francesas no Brasil que buscam estruturar ou aprimorar seus compromissos ambientais dentro da agenda ESG?
O Brasil oferece oportunidades significativas para empresas estrangeiras que atuam na agenda ambiental, especialmente diante do avanço da regulamentação global e do fortalecimento das metas climáticas. No entanto, operar no país exige atenção às especificidades locais, tanto no que diz respeito ao complexo arcabouço legal quanto à diversidade socioambiental que caracteriza seus territórios. Nesse contexto, contar com apoio técnico qualificado e conhecimento aprofundado da realidade brasileira é fundamental para garantir segurança jurídica, eficiência operacional e impacto positivo.
A Tempesta Projetos se posiciona como parceira estratégica para empresas internacionais, especialmente francesas, que desejam iniciar ou expandir suas operações no Brasil. Com atuação especializada em licenciamento ambiental e integração ESG, a consultoria une experiência de campo, domínio da legislação nacional e fluência em francês, facilitando a interlocução técnica e institucional em projetos bilaterais.
Cabe destacar que a França é reconhecida por sua vanguarda em políticas ambientais, transição ecológica e inovação sustentável. Assim, a construção de alianças focadas em impacto positivo, inovação verde, bioeconomia e transição energética é especialmente propícia. Com a realização da COP30 no Brasil, o país ganha ainda mais visibilidade internacional, o que reforça a importância de parcerias técnico-institucionais sólidas entre empresas brasileiras e francesas. Esse é um momento estratégico para fortalecer a cooperação bilateral e impulsionar soluções sustentáveis alinhadas às exigências nacionais e internacionais, como a CSRD e os compromissos do Acordo de Paris.