Entrevistas
O desafio de reforçar os laços bilaterais em tempos de crise econômica

Para Roland de Bonadona, a inovação, a adaptação e a compreensão sobre o mercado brasileiro eram chaves essenciais para os negócios
Recessão profunda, PIB em queda, inflação disparando, desemprego alcançando níveis alarmantes e uma crise política severa que afastou investimentos estrangeiros. Esse era o cenário do Brasil entre 2014 e 2016, quando Roland de Bonadona ocupou a presidência da CCIFB. O desafio para os negócios bilaterais era imenso, o que exigia muita visão e planejamento estratégico – habilidades que ele já havia consolidado durante sua experiência de mais de 40 anos no Grupo Accor, onde era responsável pelas operações da região Américas e Caribe. Ele sabia que, para que as empresas francesas continuassem a prosperar no Brasil, era preciso não apenas navegar pela crise econômica, mas também investir em uma aproximação mais profunda com a realidade local.
“Esse momento turbulento foi, sem dúvida, extremamente desafiador para muitas empresas e setores econômicos”, lembra o ex-presidente. “O mais complicado era que, enquanto o Brasil enfrentava esses desafios, o resto do mundo, incluindo a América Latina, Europa, Estados Unidos e Arábia, estava em crescimento. Nossa missão era reforçar a presença das empresas francesas no Brasil e demostrar que, com a adaptação certa, a crise poderia ser superada.”
Essa missão incluía o fortalecimento das relações bilaterais, não apenas como uma troca de bens e serviços, mas como uma verdadeira parceria entre as culturas empresarial e institucional dos dois países. Para Bonadona, a chave para a continuidade e o crescimento das empresas francesas no Brasil estava em uma combinação de adaptação e diferenciação. Muitas das marcas francesas eram reconhecidas pela qualidade e sofisticação de seus produtos, mas isso não bastava no Brasil daquela época, quando o consumidor, mais cauteloso com seus gastos, começava a priorizar o custo-benefício. “Era preciso não apenas competir, mas se conectar de forma mais profunda com o consumidor brasileiro, entendendo suas necessidades e valores”, afirma.
Em um Brasil tão diverso, com uma rica mistura de influências regionais e sociais, Bonadona incentivou as empresas francesas a pensarem fora da caixa. Seu foco era mais do que aumentar o desempenho – ele queria que as marcas francesas se tornassem parte da vida cotidiana dos brasileiros, de uma forma que fosse genuína e culturalmente relevante. “Para muitas dessas marcas, o Brasil é um dos mercados mais importantes fora da França, com algumas gerando mais de 15% de seu faturamento global aqui. Mas a presença da França no cotidiano dos brasileiros, apesar de grande, era pouco percebida. No dia a dia, tomamos café da manhã com produtos Danone, saímos para trabalhar em trens da Alstom ou no nosso carro da Renault, que usa pneus Michelin, almoçamos com o vale-refeição da Edenred, usamos shampoo e cosméticos da L’Oréal e assim por diante”, afirma. “Tentamos evidenciar essa percepção da França no dia a dia do brasileiro e, com isso, criar um ciclo virtuoso de crescimento e desenvolvimento. É um trabalho de longo prazo, mas consistente.”
Bonadona também acreditava que o Brasil poderia ensinar aos franceses a resiliência em tempos de crise, enquanto o Brasil também tinha muito a aprender com as empresas francesas em áreas como inovação, sustentabilidade e gestão. Com esse objetivo, organizou, com a diretoria, diversas missões empresariais e seminários, que permitiram uma troca constante de ideias entre os empresários dos dois países. Promover esse intercâmbio e acompanhar as tendências globais era essencial não apenas para garantir a competitividade das empresas, mas também para que elas se tornassem verdadeiros agentes de transformação na economia brasileira. Os esforços parecem ter dado bons resultados: “acredito que conseguimos solidificar a CCIFB como um elo indispensável entre os dois países. Isso fica claro quando vemos que muitas empresas francesas não só se mantivessem no Brasil, mas também ampliaram suas operações, trazendo benefícios para ambos os lados”, finaliza.