Entrevistas
O desafio de reinventar a CCIFB em tempos de crise global

Stéphane Engelhard enfrentou o pior momento da pandemia, mas conseguiu promover inovação e fortalecer os vínculos comerciais entre França e Brasil
Em um período de intensas dificuldades globais, Stephane Engelhard viveu uma liderança que exigiu adaptação, inovação e resiliência.
O ex-presidente da CCIFB assumiu o cargo em abril de 2020, em plena pandemia. O momento, quando ninguém sabia o que esperar ou como proceder, foi o início do que ele chamou de jornada do virtual. “Com a impossibilidade de organizar eventos presenciais, tivemos a iniciativa de conduzir a CCIFB para o universo digital, promovendo a realização de reuniões online”, recorda. “Organizávamos, junto com o time da CCIFB, eventos semanais com os associados, mas não só com eles. A minha ideia era juntar representantes do 'Time França' num só fórum", conta. Os encontros reuniam a Embaixada, o Consulado, a Business France e os Conselheiros do Comércio Exterior da França, entre outros. “Durante semanas, todos compartilhavam informações sobre a pandemia, discutiam o que poderia ser feito, compartilhavam benchmarks de protocolos e, especialmente, maneiras de manter a cooperação e os negócios em funcionamento.”
Mesmo com todos esses desafios, os 120 anos da CCIFB, completados em 2020, não passaram em branco. Engelhard recorda com orgulho da festa realizada em 26 de novembro para comemorar a data. "Foi um evento de enorme sucesso, realizado de forma híbrida. Tivemos a participação de diversas personalidades do meio empresarial e político, incluindo o Presidente da República na época", afirmou, destacando o impacto positivo da comemoração, que reuniu um número recorde de participantes.
A gestão também foi marcada por um momento delicado nas relações entre Brasil e França. Em 2019, as tensões políticas entre os dois países haviam alcançado um pico. O governo francês havia sugerido a internacionalização da Amazônia, o que gerou um movimento unificador contra a ideia dentro do Brasil, envolvendo desde a esquerda até a extrema-direita. "A resposta brasileira foi inadequada, com falas insultantes", lamenta o ex-presidente. “Nesse contexto, a atuação da comunidade de negócios francesa foi essencial para evitar o boicote aos produtos franceses no Brasil”, acredita.
O cenário político, que já não era o melhor, foi agravado pela pandemia. Em uma reação positiva, a comunidade de negócios francesa se uniu para dialogar, trocar informações e ajudar a reconstruir os laços entre os dois países. "As primeiras reuniões virtuais ajudaram a comunidade a atuar junta e a entender os movimentos do Governo Federal. A diplomacia era uma coisa e o mundo dos negócios era outra", comentou.
Outro grande obstáculo que Engelhard enfrentou nos oito meses em que esteve à frente da instituição foi o trágico episódio ocorrido em uma das lojas do grupo em que trabalhava. Às vésperas do Dia da Consciência Negra, um homem negro foi morto por seguranças de uma empresa terceirizada. "Eu tinha de me dedicar ao caso, que teve repercussões internacionais, e não queria que ele atingisse a CCIFB", explicou o ex-presidente. “Por isso, optei por deixar a presidência”.
Para sucedê-lo, ele indicou Pedro Antônio Gouveia, que se tornou o primeiro presidente brasileiro da CCIFB. "Estou muito orgulhoso por tê-lo recomendado. "Todos aprovaram a nomeação dele, e ao ver a evolução da CCIFB nos últimos anos, ficou claro que foi uma decisão acertada", comenta.
A modernização da Câmara e as mudanças na Diretoria Executiva foram outros pontos de destaque da gestão de Engelhard. Em 2023, ele aceitou retornar à CCIFB como Vice-Presidente e Tesoureiro Nacional, uma posição temporária. "Fico feliz por estar a serviço da comunidade francesa de negócios no Brasil e das instituições da França no Brasil por mais de 25 anos", disse ele, ressaltando seu orgulho em contribuir para a construção de laços entre os dois países.
Por fim, o ex-presidente não poderia deixar de mencionar a figura de Jean Larcher, que o convidou para participar das atividades da CCIFB pela primeira vez. "Obrigado, Jean, por me dar essa oportunidade", afirmou, expressando sua gratidão a quem o introduziu ao mundo da Câmara e das relações de negócios entre Brasil e França.