São Paulo Comissões
Um mundo em turbulência, um Brasil em dilema
Samuel Pessôa discutiu os rumos da conjuntura global e nacional em um evento do Observatório Econômico da CCIFB-SP
Os Estados Unidos já responderam por metade da economia mundial; hoje, representam apenas 20%. Ainda assim, seguem no centro do tabuleiro global, sustentados pela confiança internacional em sua moeda e em seu mercado. Foi com esse contraste que o economista Samuel Pessôa, do BTG Pactual e da FGV IBRE, abriu sua análise no encontro promovido pelo Observatório Econômico da CCIFB-SP, em conversa moderada por Octavio de Barros. Ao longo do evento, Pessôa dividiu sua fala em três blocos — o cenário internacional, a conjuntura brasileira e os dilemas fiscais que se impõem para o futuro.
No panorama global, ele ressaltou que, embora o dólar mantenha a condição de moeda dominante, a posição dos EUA não é mais tão hegemônica quanto no pós-guerra. Para ele, o maior desafio do país não está na macroeconomia, mas na sociedade: o fenômeno das “mortes do desespero” entre homens brancos sem diploma universitário, que perderam espaço em um mercado cada vez mais automatizado. Essa frustração, lembrou, alimenta discursos populistas que prometem devolver empregos industriais que já não existem.
Esse descontentamento social se traduz em políticas protecionistas que pouco resolvem e podem acirrar tensões comerciais. Ao erguer tarifas, os EUA não solucionam seus problemas internos e ainda alimentam disputas que repercutem no mundo todo. A China, sem o mesmo tipo de pressão eleitoral, tende a se beneficiar nesse embate, enquanto a Europa reage protegendo sua indústria e preservando o Estado de bem-estar social. O resultado provável é um processo de desglobalização, com cadeias de valor fragmentadas e disputas comerciais cada vez mais recorrentes.
Nesse contexto, o Brasil precisará agir com pragmatismo. Em vez de entrar em retaliações de efeito limitado, será mais vantajoso buscar exceções e acordos específicos que protejam setores estratégicos e permitam maior inserção internacional. Pessôa defendeu que essa postura flexível será fundamental para o país se manter relevante em um cenário global mais turbulento e menos integrado.
Ao olhar para dentro, o economista destacou a intuição política de Lula ao “incluir o pobre no orçamento”, movimento que considera irreversível no pacto social brasileiro. Para ele, como o país rejeita a inflação, a saída natural será aceitar maior carga tributária ao longo do tempo. O impulso fiscal deu fôlego à economia em 2023, mas a inflação cedeu no ano seguinte em razão de fatores adicionais: safra agrícola recorde, desvalorização do dólar e um mercado de trabalho mais resiliente do que se esperava.
Esse dinamismo, disse Pessôa, levou a uma revisão importante: a taxa natural de desemprego, estimada em 10% até pouco tempo atrás, hoje parece mais próxima de 7,5%. Isso significa que o Brasil pode crescer de forma consistente sem pressionar os preços, um dado relevante para calibrar políticas econômicas. Para 2025, as projeções indicam expansão em torno de 2% e inflação abaixo de 5%, cenário que garante algum alívio no curto prazo.
O nó fiscal, porém, permanece. “O problema não é técnico, é político”, resumiu Pessôa. O desafio central é conciliar a proteção social com a responsabilidade fiscal em um ambiente internacional instável. Não se trata apenas de cortar ou aumentar gastos, mas de enfrentar a pergunta essencial: que projeto de país a sociedade está disposta a financiar?
Esse dilema não é exclusivo do atual governo. Qualquer gestão futura terá de lidar com a mesma equação — o peso crescente dos programas sociais, de um lado, e a necessidade de preservar credibilidade fiscal, de outro. Sem esse equilíbrio, será difícil sustentar o investimento privado, manter a confiança dos mercados e atrair capital estrangeiro. O debate, portanto, vai além das disputas partidárias: é um tema estrutural da democracia brasileira nos próximos anos.
Na conclusão, Pessôa combinou cautela e esperança. Se por um lado o Brasil precisa lidar com seus dilemas internos, por outro pode tirar proveito de um mundo em transição. A fragmentação global abre espaço para diversificação de mercados e atração de investimentos, desde que o país adote pragmatismo nas relações externas e disciplina na política doméstica. A inclusão social já se consolidou como parte do pacto nacional; a questão que resta é se o desenvolvimento será guiado pelo improviso ou pelo planejamento consistente. Essa escolha, sugeriu o economista, definirá o ritmo do crescimento brasileiro na próxima década.
Confira algumas fotos do evento: