Franceses são maiores empregadores estrangeiros no Brasil

A troca de farpas entre o Brasil e a França nos últimos meses, que se acentuou com a crise do desmatamento da Amazônia, pode impactar o próspero ambiente de negócios entre os dois países. No primeiro trimestre do ano, a França despontou como o país que mais concretizou investimentos diretos no Brasil, num total de US$ 8,6 bilhões. Foi um recorde.

Os Estados Unidos aparecem em quinto lugar na lista divulgada em julho pela Camex (Câmara do Comércio Exterior, vinculada ao Ministério da Economia). Mais de 1.000 empresas francesas estão instaladas no país e dão emprego a cerca de 500 mil pessoas, a grande maioria brasileiras.

O vice-presidente da Câmara de Comércio França-Brasil, economista Octavio de Barros, lamenta que o afastamento diplomático ocorra justamente quando o interesse das empresas francesas pelo Brasil atingiu números inéditos. A parceria é diversificada e inclui setores como varejista, construção civil, óleo e gás, medicamentos, hotelaria e infraestruturas.

“As empresas francesas já são hoje as maiores empregadoras estrangeiras no Brasil. Elas são as maiores pagadoras de tributos no Estado de São Paulo”, explica Barros. “Todo esse episódio diplomático que surgiu é incompatível com esse momento extraordinário, no qual as empresas francesas estão fazendo uma aposta incrível e muito grande no Brasil, de longo prazo. Elas estão acreditando no Brasil e na aprovação das reformas, que podem abrir uma boa perspectiva.”

 

Bic emprega 1.000 em Manaus

Os desentendimentos entre os presidentes Emmanuel Macron e Jair Bolsonaro não ajudam essa cooperação a prosperar. O líder brasileiro chegou a dizer que abandonaria as canetas Bic porque a marca é francesa – ignorando que 95% das canetas vendidas no país são fabricadas em Manaus, onde a empresa tem cerca de 1.000 funcionários.

Uma fonte graduada da diplomacia francesa indica que raros são os casos de franceses expatriados que vão para o Brasil a trabalho: em gigantes como a montadora Renault ou a fabricante de máquinas de pagamentos Ingenico, até os executivos são brasileiros. Num contexto em que o desemprego custa a baixar de 12% no país, “brigar com as empresas francesas é brigar com o Brasil”, afirma o diplomata.

O advogado Charles-Henry Chenut, conselheiro de Comércio Exterior da França e profundo conhecedor do Brasil, indica que a crise diplomática transmite uma imagem negativa do país e diminui a sua atratividade aos olhos das empresas francesas. “Hoje, a relação está quebrada. Obviamente, quando não tem uma posição oficial de um país para ajudar os investidores a se instalar em um determinado país, significa que eles vão receber apoio para investir em outros países”, avalia o advogado. “Essa será a preferência do governo francês: acentuar os laços com outros países, em vez do Brasil.”

 

Imagem abalada não só na França

O especialista em relações internacionais Stéphane Witkowski, um dos consultores sobre o Brasil mais respeitados no meio empresarial francês, concorda. Para ele, a imagem do Brasil no exterior pode abalar uma dinâmica positiva em relação ao país, construída nos últimos 20 anos.

“Quando tem exemplos negativos de política interna, resultado de problemas de unidade social, com as minorias, com a Amazônia etc, o clima não favorece um ambiente de negócios, que poderia estar progredindo”, constata o consultor do Medef Internacional e presidente do Conselho de Orientação Estratégica do Instituto de Altos Estudos da América Latina (IHEAL-Paris).

“Isso não facilita muito a estabilidade da qual os empresários necessitam, para ter uma visão de longo prazo nos investimentos. Eles precisam identificar um Estado com uma política clara. Isso é importante, assim como a segurança jurídica, diz Witkowski.

Chenut lembra que a burocracia e a complexidade tributária do Brasil já são empecilhos graves à instalação de empresas estrangeiras no país. “O Brasil merece o esforço, mas é complicado. Investir num país que, além de ser complicado, não tem uma imagem boa, não vale a pena”, comenta o advogado. “Nesse aspecto, haverá um impacto certo na economia brasileira. Hoje, no radar do mundo, a América Latina e o Brasil não aparecem: o investidor estrangeiro vai à China, à Ásia, às vezes à Europa. O Brasil perdeu a atração e a política, hoje, não ajuda.”

 

Sem boicote a marcas francesas

Os especialistas também notam que, até o momento, os consumidores brasileiros não parecem ter se voltado contra as marcas francesas, como fez Bolsonaro. As empresas já instaladas em território brasileiro estão atentas, ressalta Chenut: “Eu faço parte de um grupo no WhatsApp com as maiores empresas francesas no Brasil e tem uma vigilância grande sobre as reações dos consumidores brasileiros, sobre um eventual boicote contra elas, um french bashing”, nota. “Mas, no final das contas, nada aconteceu.”

Atualmente, a balança comercial entre os dois países é levemente favorável à França. O Brasil exporta US$ 1,3 bilhões em produtos para os franceses e importa cerca de US$ 1,6 bilhões.

 

Fonte: rfi

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