Nota em memória a Jacques-Louis Mercier

Compartilhamos uma homenagem ao engenheiro e empresário, membro ativo da Câmara e importante nome das relações bilaterais França-Brasil

 

A CCI França-Brasil, sua equipe do Rio de Janeiro, membros da Diretoria e do Conselho de Administração reiteram as condolências à família e aos amigos do engenheiro e empresário Jacques-Louis Mercier, falecido no dia 10 de dezembro de 2020. 

Desde 2000, ao lado de sua esposa Marie-Annick Mercier, foi um membro ativo de nossa Câmara e importante nome nas relações bilateriais entre França e Brasil. Fundador da Consulcom, primeira empresa no mundo a se especializar em transporte comercial no espaço, era uma das maiores autoridades em tecnologia e telecomunicação espacial, representando brasileiros e franceses em suas atividades. 

Além do caminho profissional de sucesso, Mercier também é lembrado pelo afeto que dedicava a amigos e pela presença cativante no círculo de relacionamentos carioca, demonstrando grande apreço pela cidade do Rio, com suas belezas, e pela rica cultura do Brasil.

Em homenagem à memória de Jacques-Louis Mercier, compartilhamos depoimentos de membros da nossa rede que acompanharam sua trajetória: 


Patrick Sabatier, Vice-Presidente da CCIFB-RJ:

“Jacques Mercier teve uma vida incrivelmente rica! Este Grand Monsieur deixou sua marca nas relações França-Brasil. Primeiramente do ponto de vista acadêmico, já que este físico e matemático, formado na Politécnica de Zurique e Doutor pela Universidade de Washington, descobriu o Brasil em 1966 liderando uma missão francesa de cooperação e intercâmbio científico, composta por 70 pesquisadores em seis universidades no Brasil e em particular no Rio, na Coppe-UFRJ e na PUC, onde foi professor de matemática. 

Após uma pausa de 2 anos como Diretor da Escola Nacional de Belas Artes de Paris, deu uma grande contribuição para a relação bilateral econômica ao especializar-se, inicialmente associado a Joaquim Monteiro de Carvalho e depois por conta própria, na representação comercial no setor aeroespacial. Em particular, durante anos ele foi o grande representante da Arianespace, permitindo que a solução francesa fosse escolhida para o lançamento de satélites brasileiros. Símbolo da sua contribuição para o relacionamento dos 2 países, foi elevado à categoria de Cavaleiro da Legião de Honra e recebeu a Ordem do Mérito Aeronáutico e a Medalha Mérito Santos-Dumont! 

Foi ainda Conselheiro do Comércio Exterior francês, e membro assíduo, assim como sua esposa Marie Annick, da Câmara de Comércio França-Brasil. Sua inteligência, seu humor e sua humildade farão falta no Rio de Janeiro, cidade que ele tanto amou. Foi um marido apaixonado, um pai amoroso com sua filha Marie e seu neto Louis, e um amigo excepcional, que agora brilha no firmamento do céu estrelado.”


Carlos Roberto Siqueira Castro, membro da Diretoria e do Conselho de Administração da CCIFB-RJ: 

“Jacques-Louis Mercier deixará muita saudade para a sua legião de amigos franco-brasileiros. Nascido em Paris em 1933, mudou-se muito jovem para a Suíça juntamente com seus pais, que atuaram na resistência aos nazistas na Europa. Chegou ao Rio de Janeiro em 1966, para presidir uma missão francesa de cooperação e intercâmbio científico. Em 1973, durante o regime militar no Brasil, foi perseguido por acolher em sua casa opositores da ditadura militar, o que o obrigou a deixar o Brasil por cerca de dois anos, quando exerceu a função de diretor da Escola de Belas Artes de Paris. Como empresário e engenheiro, atuou com grande êxito na área de telecomunicações e no setor aeroespacial, tendo tornado sua empresa, Consulcom, um expoente no setor de satélites, aviões e foguetes. Também representou no Brasil a empresa francesa Arianespace, especializada em transporte comercial no espaço. Sua vida social foi sempre intensa e cercada de amigos que o acompanharam por toda a vida. 

Jacques-Louis e sua mulher Marie-Anick constituam o casal francês mais famoso e querido do Rio de Janeiro. Suas casas no Leme e em Búzios guardam as melhores lembranças da hospitalidade e simpatia do casal para tantos amigos que nutriam por eles grande estima, amizade e admiração. Sua colaboração para a nossa Câmara de Comércio e Indústria França-Brasil por mais de 20 anos foi marcante e muito contribuiu para estimular as relações econômicas e culturais entre os dois países. Por sua grande afeição pelo Rio de Janeiro, Jacques-Louis Mercier gostava de ser lembrado, merecidamente, como o mais carioca dos franceses.”


Michel Provost, membro do Conselho de Administração da CCIFB-RJ:

“Jacques faz parte destes grandes nomes franco-cariocas de longa data, que marcaram toda uma geração. Tive o privilégio de estar ao seu lado quando atuou junto a Arianespace, a qual representou no Brasil por mais de 30 anos. Sou testemunha da notável inteligência deste matemático de formação, de uma grande modéstia, que sabia utilizar o humor e possuía uma singular cumplicidade com sua companheira de longa data, Marie-Annick, que esteve ao seu lado até seu último suspiro. Com ele, foi-se uma página da história da Câmara, com uma tristeza certamente profunda, mas com a memória positiva que Jacques nos deixa, de uma vida de plenitude.”


Jean-Noël Hardy, membro do Conselho de Administração da CCIFB-SP:

“Com 28 anos, recém chegado de Paris, comecei a trabalhar no escritório da Aerospatiale (ancestral da EADS e da Airbus) no Rio de Janeiro, no final de 1979. E logo no início de 1980, uma reunião de trabalho levou-me a um edifício moderno da Ladeira de Nossa Senhora, no bairro da Glória. Lá, encontrei então pela primeira vez, um senhor alto, elegante, com uma voz muito segura sem ser autoritária, e fiquei impressionado de imediato. Era Jacques-Louis Mercier, que tinha na época menos de 50 anos. Apesar de sua discrição natural, eu fiquei aos poucos sabendo de sua vida pregressa: a Suíça, as Belas-Artes em Paris, a PUC-RJ, a matemática, a Boeing, o livro sobre o cálculo tensorial.

O motivo da reunião do início de 1980, que foi a primeira de muitas, era o fato que Jacques-Louis representava no Brasil os interesses comerciais da Airbus, que, na época, era uma iniciativa audaciosa da indústria aeronáutica europeia. Com efeito, tratava-se de desafiar o quase-monopólio americano no segmento da aviação comercial, com um avião novo, o primeiro wide-body bimotor do mundo, sem reais referências, e um nome estranho, Airbus A300.

E foi graças a Jacques-Louis Mercier que o milagre aconteceu: ele conseguiu fazer com que três das quatro companhias aéreas de então, a Varig, a Cruzeiro e a Vasp comprassem sete Airbus A300, os primeiros começaram a operar já em 1980. A dominação da Boeing e da McDonnell-Douglas no Brasil tinha chegado ao seu fim. Jacques-Louis foi o pioneiro ao abrir caminho no Brasil para os cerca de 200 aviões Airbus voando agora no país.

Depois o Jacques-Louis Mercier ficou muito mais conhecido pelo sucesso como representante da Ariane, o foguete europeu que até agora levou ao espaço todos os satélites brasileiros. Além dos incríveis êxitos comerciais na área aeroespacial, Jacques-Louis deixará a lembrança de um personagem único, cheio de cultura e de humor. Os que o conheceram terão uma saudade eterna, mas ele sempre estará presente na memória de todos.”

 

Foto: Gianne Carvalho.

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