Transição energética, agricultura sustentável e inovação: quais as oportunidades e os desafios do Brasil no pós-Covid?

Entrevistamos Izabella Teixeira, copresidente do Painel de Recursos Naturais da ONU (IRP-Unep), membro do Conselho da Divisão de Assuntos Sociais e Econômicos das Nações Unidas e Senior Fellow do CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) para nossa série especial de conteúdos da semana do Dia Mundial do Meio Ambiente. Confira:

 

Qual é a pauta comum de sua atuação no âmbito das Nações Unidas e do CEBRI?

Izabella Teixeira: Minhas relações com as Nações Unidas acontecem formalmente através da copresidência  do Painel Internacional de Recursos Naturais, responsável pelas questões que envolvem a nova economia, particularmente a economia circular. Essa dimensão inclui toda a emergência de uma nova pauta econômica, a exemplo da green economy e da economia de baixo carbono, expressões que buscam uma nova relação do homem com a natureza e, portanto, uma relação mais sustentável de apropriação de recursos naturais, sem geração de resíduos. Do ponto de vista formal, essa função junto à ONU acaba permitindo que eu traga para o CEBRI debates e pautas envolvendo a questão da economia circular e as novas economias. Por conta de um protagonismo desenvolvido na agenda climática, devido à minha atuação no Brasil e no apoio à construção do Acordo de Paris, continuo trabalhando essa agenda internacionalmente. Também como integrante do board do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais (DESA) das Nações Unidas, participo de discussões exatamente no âmbito dessas novas perspectivas de multilateralismo, agendas econômicas, sociais e de sustentabilidade. Isso faz com que o CEBRI acabe sendo um locus no Brasil de discussão com diferentes players econômicos e sociais sobre a dinâmica internacional e essas novas agendas. É uma conexão que opero lá fora exercendo chapéus distintos, mas trago ao Brasil o que está emergindo e quais as novas discussões estratégicas sobre produção, consumo, circularidade, economia de baixo carbono, novos arranjos com o setor privado global, quais os interesses geopolíticos e os desafios do multilateralismo. Tudo isso é traduzido ao espaço que o CEBRI confere ao núcleo de meio ambiente, mudança do clima e sustentabilidade, no qual sou Senior Fellow. Lá traduzimos debates internacionais em um contexto de atores brasileiros, o que possibilita uma interlocução orientada para a sociedade civil, incluindo ainda o setor privado, financeiro e ciência.   

 

Quais são os principais impactos da pandemia de COVID-19 nessa agenda? Como, nesse contexto, acelerar uma transição ecológica e energética que seja socialmente aceitável? Que parcerias e ações estratégicas e estruturantes devem ser buscadas e/ou fortalecidas, e qual o potencial de colaborações multilaterais e bilaterais, a exemplo da relação França-Brasil?

 

Izabella Teixeira: Pelo que a literatura tem mostrado, o surgimento do vírus revela uma relação inadequada entre homem e natureza, particularmente, com os animais silvestres. Em três meses, a pandemia dominou e parou o mundo, não respeitou fronteiras tanto no âmbito físico e geopolítico, quanto do ponto de vista de perfil social e econômico. Todos nós estamos expostos às vulnerabilidades e aos riscos que o vírus determina, e isso coloca todos em uma perspectiva de viver crises, que deverá ser impactada em função da economia. O mundo já enfrentava problemas graves em relação à economia global. Agora, iremos viver uma “pandemia econômica” sem precedentes, o que determina aos estados nacionais um papel absolutamente estruturante e de necessária competência para passar por esse período. Temos ainda a “pandemia climática” (uso aqui o termo pandemia como uma expressão que equivale a pensar em um problema que afeta a todos). Isso determinou uma percepção sobre risco, vulnerabilidade e incerteza que as sociedades no mundo não tinham, mantendo uma certa ideia de que a questão climática fosse um problema para o futuro. As pessoas podem agora começar a entender que as rupturas associadas com a natureza determinam situações de guerra e colapso de uma sociedade global. Essa crise provocada pela Covid-19 é uma possibilidade de pararmos e irmos para um novo caminho, assumindo uma transição, entendendo quais soluções podem ser aceleradas em torno do bem-estar global, e quais irão permanecer porque não há capacidade de resolver problemas no curto ou médio prazo.

A questão energética enquadra-se nessa avaliação. A mesma coisa para o comércio internacional associado à produção de alimentos. Ficou claro com essa crise a importância da agricultura e de novos padrões de consumo frente às cadeias de suprimento de alimentos, que acaba assumindo uma posição importante não só do ponto de vista de manter a nossa vida, mas das relações de comércio. Por outro lado, observamos a emergência do impacto da economia da inovação. Por meio do uso das tecnologias e de novos comportamentos, vamos viver cada vez mais novas relações de trabalho e produção. Esses novos modos de viver, consumir e se relacionar serão importantes de serem entendidos a partir do que estamos vivendo hoje com essa crise. O pós-Covid nos oferece uma oportunidade para que possamos nos ver enquanto indivíduos e sociedade. Vamos ter que entender a importância das transições; discutir um futuro que está no presente.

A sociedade não pode depositar isso nas mãos de alguns atores. Ela tem que ser parte do debate e da busca por soluções, pois se não for dessa forma as medidas não chegarão à situação local. Do ponto de vista internacional, para recuperação e retomada, além da cooperação através da ciência, precisamos de uma nova agenda global que envolva os temas desse contexto que vivemos. Vejamos os exemplos da fala de Emmanuel Macron ao jornal Financial Times e da chanceler Angela Merkel com relação à questão do clima, e como estão conduzindo as questões da pandemia na Alemanha e França. O que se observa claramente é uma organização para uma saída da crise pautada em questões reais daquela sociedade; valores associados a uma melhor relação com a natureza, o chamado new green deal, e uma melhor relação com o planeta do ponto de vista político, geopolítico  e econômico. Precisamos assim não só de valores compartilhados, mas fundamentalmente de um novo caminho para lidar com uma sociedade globalizada de forma interdependente.

A crise do Covid deve provocar novos caminhos não só na cooperação internacional e multilateral, mas bilateral. Desse modo, as relações que envolvem comércio, indústria,  setor privado, empresas que operam no Brasil e globalmente, mostram uma grande oportunidade de busca por agendas bilaterais ou trilaterais, entendimentos e visões comuns que nos propiciem acelerarmos  as soluções associadas a esse momento de transição, e que envolvam a questão do clima, biodiversidade, segurança alimentar, hídrica e em saúde. Vamos viver neste século voltados para a saúde, trajetória em que a economia da inovação trará impactos extremamente importantes, não só no jeito de produzir e consumir, mas no modo que convivemos em sociedade. É um período de aprendizado. A minha esperança é que essa crise nos leve realmente a capacidade de superar medos, de propor novos caminhos onde possamos contar histórias mais sustentáveis sobre o futuro e não tentar reinventar narrativas sobre o passado. A Covid-19 mostra um atalho para que possamos tomar uma decisão agora, repactuar os caminhos da economia no mundo. Tudo isso é um ensinamento que precisamos ter para nos transformar. 

 

Nesta semana mundial do Meio Ambiente, o que você ressaltaria como principais desafios e oportunidades específicos para o Brasil?

 

Izabella Teixeira: Temos oportunidades importantes do ponto de vista social. O país precisa entender a dimensão da fragilização de seu tecido social e como vamos lidar com isso, particularmente  no que envolve qualidade de vida e bem-estar dos brasileiros. Temos que entender melhor as condições de saneamento nas cidades, saber como vamos construir uma agenda de soluções robusta e permanente. É indigno demais você querer ser uma sociedade desenvolvida e não fazer um enfrentamento dessa situação.

De outro lado, temos vários caminhos que podemos explorar e liderar. Um deles é o da transição energética. Ao invés de ficar confortavelmente na sua situação de matriz energética balanceada entre renováveis e não-renováveis, que coloca o Brasil na condição que todos os países do mundo querem em 2050, que se possa aproveitar essa vantagem e equilibrar substituições do uso de combustíveis fósseis pelo uso do gás natural, dentro do que determina a segurança energética do país. Como terceiro pilar, precisamos de uma agenda mais ambiciosa no âmbito da mudança de comportamento sobre a eficiência energética. Tudo isso estaria colocando o Brasil num contexto de ambição climática muito importante, valorizando aquilo que seriam atalhos para não só cortar emissões, mas para evoluirmos através de investimentos, parcerias, novos negócios e inovação na chamada economia de baixo carbono. Do ponto de vista da agricultura, temos um grande caminho e oportunidade. Dentro do desafio que o mundo coloca através do “triplo s” (food security, food safety e food sustainability), o Brasil possui terra, tecnologias e técnicas para implementar produtividade e obter com isso uma melhor relação homem e natureza da perspectiva de produção de alimentos.

Ainda é possível assumir melhor a rastreabilidade de suas cadeias produtivas, desenvolver marcas que possibilitem aos seus consumidores, nas cadeias internacionais, identificar que a procedência dos produtos brasileiros não possui relação com destruição ambiental, mas vem de uma relação de conservação e proteção da biodiversidade de ecossistemas. O Brasil poderá assim liderar uma nova aliança com a produção de alimentos sustentáveis, entendendo melhor a questão de enfrentamento de déficit nutricional no mundo. Podemos usar o comércio internacional e a capacidade de produzir alimentos para ajudar outras sociedades, fazendo dessa forma que os negócios dialoguem com os interesses públicos. O Brasil pode e deve ainda trazer novos investimentos e saber contar novas histórias da agricultura brasileira dos próximos 40 anos. Não tem como pautar a segurança alimentar no mundo sem a agricultura brasileira, o que precisamos é desenvolver uma agricultura mais sustentável, requalificando o início da cadeia produtiva de alimentos, valorizando pequenos agricultores.

No aspecto da indústria brasileira, há muitas possibilidades para avanços da inovação, não só na economia de baixo carbono e de tecnologias, mas nos pequenos ajustes em parques industriais que estão obsoletos. Nas cidades, temos que entender como lidar com as economias urbanas.

O colapso mostrado com a Covid mostra que talvez tenhamos novos caminhos a serem buscados sob o ponto de vista de inovação, serviços e negócios, que vão orientar as economias urbanas, envolvendo desde questões de mobilidade até opções de lazer. É preciso que a cultura tenha um papel importante nesse contexto, valorizando não só as relações solidárias, mas uma expressão de novo humanismo neste século.

O papel do setor produtivo, do setor financeiro e da ciência precisa ser redimensionado nessa sociedade que emerge. Precisamos criar condições para ter futuro, e essas condições passam pela sustentabilidade. Tudo isso está no contexto de uma sociedade emergente que deveria usar esse momento de transformação e de busca de novos caminhos para entender as relações entre economia, homem, ciência e natureza.

 

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