Transição energética, investimentos em tecnologias disruptivas sustentáveis e parcerias estratégicas: quais os desafios e as possíveis ações no pós-COVID?

 

Confira a entrevista com o professor Emilio Lèbre La Rovere, coordenador do Laboratório Interdisciplinar de Meio Ambiente e do CentroClima da COPPE/UFRJ

 

“O maior desafio está na conscientização da sociedade e sua educação para a sustentabilidade”, destaca Emilio Lèbre La Rovere, professor e coordenador do Laboratório Interdisciplinar de Meio Ambiente e do CentroClima da COPPE/UFRJ, nosso entrevistado na semana do Dia Mundial do Meio Ambiente. Para ele, em um período pós-Covid “a retomada do crescimento econômico pode ser feita em outras bases, e há uma oportunidade de direcionar os enormes investimentos necessários para projetos mais sustentáveis, principalmente na infraestrutura de energia, transportes e saneamento, na indústria e construção civil”, afirma.

No âmbito da transição energética, o pesquisador destaca: “Tecnologias disruptivas na indústria e nos serviços, como por exemplo, a transformação digital, podem acelerar essa transição. Parcerias estratégicas entre organismos multilaterais de financiamento e bancos nacionais de desenvolvimento com investidores institucionais buscando sair dos combustíveis fósseis para energias renováveis serão cruciais para alavancar o financiamento dos enormes investimentos requeridos nesta transição.”

 

Confirma a entrevista completa:

 

Quais são as missões do Laboratório Interdisciplinar de Meio Ambiente (LIMA) e do Centro Clima da COPPE/UFRJ, e quais são seus eixos de atuação prioritária?

O Laboratório Interdisciplinar de Meio Ambiente (LIMA), vinculado ao Programa de Planejamento Energético (PPE), faz parte do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cujo objetivo é fortalecer a atuação de professores e alunos do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE) na área de Engenharia Ambiental, permitindo a realização de estudos e projetos conjuntos e a consolidação de linhas de pesquisa interdisciplinares nessa área. De outubro de 1997 até hoje, o LIMA foi responsável pela execução de cerca de  200 projetos de pesquisa, muitos dos quais para instituições internacionais. Ao longo desse período, foram firmados convênios, parcerias, acordos de cooperação e contratos com órgãos públicos da administração federal, estadual e municipal, além de empresas e organizações não-governamentais. Essas atividades de pesquisa propiciaram a publicação de, aproximadamente,  400 trabalhos científicos, sendo 115 artigos completos em periódicos nacionais e internacionais, 82 livros ou capítulos de livros, 150 comunicações em Anais de Congressos e 46 artigos em revistas e jornais. Além disso, forneceram material para a elaboração de 84 dissertações de Mestrado e 37 teses de Doutorado defendidas no PPE/COPPE/UFRJ por pesquisadores do LIMA. Outras doze teses se encontram em andamento. 

O LIMA foi criado em dezembro de 1997 com o suporte da área de Ciências Ambientais do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PADCT/CIAMB) e recursos do Banco Mundial e do Ministério da Ciência e Tecnologia. Trata-se de um dos resultados do programa de pesquisas integradas conduzido entre 1995 e 1997, que envolveu o desenvolvimento de metodologias de Auditoria Ambiental e a consolidação dos cursos de Mestrado e Doutorado na Área Interdisciplinar de Engenharia Ambiental, com ênfase nas subáreas de Planejamento Ambiental, Geotecnia Ambiental, Gestão Ambiental da Produção, Tecnologia Ambiental, Modelagem Ambiental, Gerenciamento Costeiro e de Bacias Hidrográficas, Acústica Ambiental e Transportes e Meio Ambiente. 

Criado em 2000 por intermédio de um convênio firmado entre a Secretaria de Qualidade Ambiental nos Assentamentos Humanos (SQA) do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e a COPPE/UFRJ, o Centro Clima tem participado ativamente no desenvolvimento de políticas públicas e reforço da capacitação nacional e internacional de atores sociais diversos quanto a ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, com foco na elaboração de inventários de gases de efeito estufa municipais e estaduais, construção e análise de cenários de mitigação, projetos inovadores de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) e adaptação dos pequenos produtores rurais ao aumento da secas devido a mudanças do clima, assim como de estados, cidades e empresas.

 

Quais são os principais impactos da pandemia de COVID-19 nessa agenda? Como, nesse contexto, acelerar uma transição ecológica e energética que seja socialmente aceitável? Qual é o potencial da transformação digital enquanto alavanca? Que parcerias e ações estratégicas e estruturantes devem ser buscadas e/ou fortalecidas, e qual o potencial da colaboração França-Brasil? 

Temos a curto e médio prazos os graves impactos de uma recessão de grandes proporções, sobre o emprego, a renda, as finanças públicas, além da terrível perda de vidas prematuramente devido à pandemia. Na agenda da transição rumo a uma sociedade mais sustentável, há o impacto da redução de investimentos em tecnologias sustentáveis que em geral requerem o financiamento de maiores dispêndios iniciais, recuperados ao longo da vida útil dos projetos. Ainda é cedo para estimar todos os impactos de longo prazo, mas já se antevê a possibilidade de mudanças de estilo de vida e padrões de consumo, além da aceleração da difusão do trabalho remoto, com redução das áreas de escritórios no setor produtivo. A retomada do crescimento econômico pode ser feita em outras bases, e há uma oportunidade de direcionar os enormes investimentos necessários para projetos mais sustentáveis, principalmente na infraestrutura de energia, transportes e saneamento, na indústria, na construção civil. Para que ela seja socialmente sustentável, essa transição vai demandar um esforço maior da população de mais alta renda. Isso pode ser feito através de uma reforma tributária que incida não apenas sobre a renda, mas também sobre o patrimônio, na linha do que foi proposto pelo economista Thomas Piketty em seu livro O Capital e a Ideologia (ed. Seuil, 2019). Isto é particularmente necessário nos países emergentes como o Brasil onde as desigualdades de renda são muito maiores que nos países mais avançados. Tecnologias disruptivas na indústria e nos serviços, como por exemplo, a transformação digital, podem acelerar essa transição. Parcerias estratégicas entre organismos multilaterais de financiamento e bancos nacionais de desenvolvimento com investidores institucionais buscando sair dos combustíveis fósseis para energias renováveis serão cruciais para alavancar o financiamento dos enormes investimentos requeridos nesta transição. Já há diversos estudos de cenários mostrando os caminhos para se zerar as emissões de gases de efeito estufa em 2050: por exemplo, a iniciativa DDP – Deep Decarbonization Pathways vem mostrando algumas dessas opções para os países do G-20, inclusive a França e o Brasil, através de projeto com a participação do Centro Clima / COPPE / UFRJ e coordenado pelo IDDRI.  Será fundamental encontrar mecanismos financeiros inovadores para viabilizar essas trajetórias rumo a uma economia mais sustentável, reduzindo os riscos dos projetos de infraestrutura de baixo carbono nos países em desenvolvimento.

 

Nesta semana mundial do Meio Ambiente, o que você ressaltaria como principais oportunidades e desafios específicos para o Brasil?

O maior desafio permanece sendo o de enfrentar de forma mais eficaz a pandemia e minimizar o número de mortes causadas por ela. A seguir, desenhar e executar um Plano de Retomada do desenvolvimento, mas em outras bases, mais sustentáveis, inspirando-se na tentativa que começa a surgir agora na Europa. O Estado deve atuar rápido na eliminação do atraso de nossa infraestrutura, propiciando a criação de frentes de emprego, e as tecnologias mais sustentáveis são talhadas para isso por demandarem mais mão de obra: energias renováveis, eficiência energética, ferrovias, hidrovias, manutenção de rodovias, portos, construção de casas populares, coleta e tratamento de esgoto e de lixo com captura do biogás, etc.

Como toda crise, esta crise atual também traz em seu bojo uma janela de oportunidade, mas o maior desafio está na conscientização da sociedade e sua educação para a sustentabilidade. O papel dos meios de comunicação será mais do que nunca fundamental para mostrar e difundir boas práticas: ações valem mais do que mil palavras!

 

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