Mulheres na Liderança: Diretora de Comunicação da Michelin compartilha iniciativas e experiências  

A série “Mulheres na liderança: iniciativas para sociedades inclusivas, inovadoras e sustentáveis” traz em sua terceira entrevista os depoimentos de Glauce Ferman, Diretora de Comunicação e Marcas para América Latina da Michelin. À frente de diversos projetos na área de Comunicação Corporativa e Institucional, ela compartilhou alguns desafios e iniciativas do Grupo para promoção da diversidade e equidade, além de relatar experiências e aspirações.

Confira:

 

1. O tema definido pela ONU Mulheres para o Dia Internacional das Mulheres em 2019 é: “Pensemos em igualdade, construção das mudanças com inteligência e inovação” (« Penser équitablement, bâtir intelligemment, innover pour le changement »). Esse tema dialoga com eixos estratégicos de atuação da CCI França-Brasi: Inovação, Responsabilidade Social Empresarial e Sustentabilidade. Nesse contexto, qual é o posicionamento da Michelin em termos de princípios e ações?

Na Michelin, a diversidade é um  ativo fundamental e uma  alavanca de desempenho, que se traduz em uma  política global de Recursos Humanos da empresa. O respeito às pessoas em toda sua  singularidade é base da política de diversidade que estrutura nossas ações, garantindo coerência e equidade. Para a empresa, a diversidade é um acelerador da inovação, do desenvolvimento sustentável e um instrumento para o desempenho responsável da atividade empresarial.

Nesse contexto, estamos focados em possibilitar que mulheres tenham condições de alcançar posições profissionais de gerenciamento e direção. Em 2005, fui a primeira brasileira, casada e com filhos a ser expatriada com a família, por dois anos. Não foi um processo simples, mas a empresa deu todo o suporte para o sucesso da experiência. A Michelin sabia que isso dependeria, entre outros fatores, do bem estar de meu marido e de minhas filhas no período da expatriação. E houve todo o cuidado com isso. Tivemos um excelente suporte da área de recursos humanos, do Brasil e da França, para que a experiência fosse a melhor possível.

Na América do Sul, tivemos importantes avanços com a presença de mulheres em cargos de alta gestão. Em 2016, havia apenas uma única mulher na equipe de direção da Região América do Sul . Hoje, somos cinco, o que equivale a cerca de  30% do total.

O segmento de transportes em geral é um mundo ainda muito masculino, precisamos avançar ainda mais com iniciativas que gerem resultados positivos no âmbito da diversidade.

Na área comercial, há evoluções significativas com o lançamento de um recente programa para possibilitar a formação de mulheres no “terreno”, com o objetivo de termos rapidamente um número mais significativo de mulheres em cargos executivos. Temos um grande desafio também na indústria, onde a questão da ergonomia evolui permanentemente.

Acreditamos que, no mundo globalizado, a diversidade – e a presença da mulher é emblemática neste sentido – é fundamental para a competitividade do nosso negócio. A diversidade aguça a compreensão das necessidades dos clientes, antecipando tendências a partir de uma visão mais ampla, facilitando a identificação de oportunidades alinhadas com a missão e os princípios da empresa. É um processo ganha-ganha. A sociedade se beneficia, assim como a empresa e seus colaboradores. E assim temos clientes cada vez mais satisfeitos, que confiam na marca MICHELIN. Manter esta confiança exige compromissos por parte da empresa, já que a  excelência dos produtos e serviços também está baseada na diversidade de nossas equipes e no nosso comprometimento com o meio ambiente e a sociedade. Somente desta forma nos manteremos competitivos em um mercado global.

 

2. Quais são os principais desafios, pontos críticos ou gargalos na construção dessas mudanças; E como a sua área de atuação (Comunicação Corporativa) pode contribuir nessa transformação?

Existem inúmeros desafios econômicos e sociais e a equidade entre homens e mulheres passa necessariamente por superá-los. A existência de políticas públicas que garantam creches, escolas, saúde, segurança, mobilidade e uma rede mínima de amparo assistencial é fundamental nesse processo.

Em um mundo onde a cultura masculina é predominante, não é fácil convencer que  todos nós, homens e mulheres, seremos beneficiados no dia em que houver respeito pelo diferente e oportunidades iguais a todos. Falo principalmente de liberdade e de acesso a serviços públicos essenciais. Um exemplo é a necessidade de existir uma lei para garantir à mulher viajar de trem ou metrô sem ser importunada nos horários de pico: vagão exclusivo para mulheres. Isso evidencia o estado de incivilidade em que ainda nos encontramos.

O rompimento de  barreiras culturais e comportamentais será essencial para agirmos de um jeito novo  e inteligente, construindo uma sólida ponte para o amanhã desejado. Este é um esforço conjunto, de toda a sociedade e, neste cenário, a CCIFB age de forma muito oportuna, trazendo o tema ao debate, estimulando as empresas se engajarem. As corporações precisam ser  agentes de transformação para  acelerar as mudanças necessárias. Este é o nosso maior desafio.

Possuímos no Grupo Michelin uma rede internacional de homens e mulheres, da qual faço parte, para discutir as grandes questões relacionadas à diversidade, onde a equidade de gêneros tem um grande destaque.

Vejo dois pontos críticos: o primeiro é compatibilizar a carreira da mulher com a questão da maternidade. A maternidade jamais pode ser vista como um obstáculo para o desenvolvimento profissional. Pode ser necessário um percurso diferente, mas isto não pode se transformar num obstáculo. O segundo ponto que se faz necessário enfrentar é como a empresa vai se comportar em relação ao empregado que divide com a esposa, que também trabalha, a responsabilidade com a família e as tarefas do lar. Como é visto por colegas de trabalho e gestores a flexibilização do horário do empregado, para que ele participe da reunião da escola do seu filho ou o acompanhe numa consulta médica?

Na Michelin, adotamos na área administrativa e comercial o horário flexível e possibilitamos o home office semanal, dando possibilidade a colaboradores de ter um maior equilíbrio entre a sua vida profissional e a pessoal.

A contribuição da área de comunicação, onde atuo, é no sentido de servir como alavanca para as mudanças comportamentais e culturais que necessitamos promover. A todo tempo, estimulamos reflexões, veiculando temas que favoreçam à compreensão sobre a importância da diversidade. Vivemos na era digital, que deu velocidade da luz à informação. O mundo virtual é muito ágil, tudo repercute rapidamente. Hoje, somos todos repórteres em potencial com um celular nas mãos, que um dia foi somente um telefone. Devemos tirar proveito disso para disseminar uma nova cultura, mais inclusiva, utilizando todas as ferramentas da comunicação. Somos todos importantes atores nesse novo ciclo.

 

3. Aspirações são projeções de transformação positiva, e atuam como motores de motivação e engajamento. Quais seriam as 3 palavras-chave que escolheria para traduzir suas aspirações nesse Dia Internacional das Mulheres?

Para tratar dos motores de motivação e engajamento na busca de um mundo mais equilibrado para homens e mulheres, uso as seguintes palavras-chave:

Inspiração: devemos buscar o que nos motiva para exercermos plenamente o papel de motores dessa transformação.  Sejamos pessoas inspiradas e inspiradoras!

Cooperação: numa jornada de transformação, a cooperação é fundamental. Homens e mulheres trabalhando juntos para atingir um objetivo comum.

Abertura ao novo: pensar de um jeito novo e “sair  da caixa“ para criar novas soluções. Não podemos continuar a fazer mais do mesmo.

Acredito que já obtivemos importantes avanços e que a crescente conscientização sobre os ganhos e a importância da diversidade acelerará o progresso em favor da construção desse “mundo melhor”, que todos nós almejamos.

 

 Glauce Ferman possui formação em Marketing pela PUC-RJ e em Comunicação Empresarial pela Syracuse University / Aberje. Trabalhou nos EUA, França e Inglaterra. Experiência nas áreas de Relações Institucionais, Sustentabilidade, Comunicação Corporativa, Marketing, Comercial e Logística.

 

(Foto: Marcos Pinto – Michelin)

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