ESG na cadeia de abastecimento

Fernando Gambôa*

Nelmara Arbex**

Sebastian Soares***

 

A Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) conduziu no dia 17 de junho o 1º Fórum da Cadeia Nacional de Abastecimento, um grande evento que é um marco para o setor e a cadeia de abastecimento. A iniciativa contou com sessões interessantes e enriquecedoras com presidentes de associações, autoridades e parceiros.

 

O evento não poderia ser mais relevante e oportuno. O mundo mudou e os múltiplos aspectos dessa mudança serão duradouros. Os dados mostram que a volta ao novo normal não acontecerá tão cedo. Diria até que nem voltaremos mais ao mundo que conhecemos. Esta, aliás, é a impressão de um em cada quatro líderes empresariais ouvidos em nosso estudo global com 500 CEOs das empresas mais influentes do mundo.

 

Em consumo e varejo, dentre as muitas transformações, como trabalho remoto, crescimento do comércio online, aumento da digitalização e expansão da análise de dados, merece destaque a importância da agenda ESG. Implementar práticas ESG não se limita às leis, ao “compliance”, mas tem a ver com a contribuição concreta de empresas e lideranças estão dispostas a fazer pela transformação social e ambiental com impacto positivo. Esse propósito deve estar conectado à estratégia dos negócios, contribuindo para o aumento da qualidade de vida e proteção dos recursos naturais através de suas atividades cotidianas.

 

A ideia de que o aumento de produção exige que os recursos naturais sejam exauridos, ou a convicção de que os relatórios financeiros retratam o valor e a realidade de uma empresa, pertencem ao passado. Estruturar uma boa governança é o primeiro passo uma empresa ter sucesso ao implementar uma agenda ESG. Isso significa engajar todos os quadros e adotar critérios claros sobre como os assuntos ambientais e sociais serão tratados e monitorados pela empresa.

 

É fundamental estabelecer prioridades para alocar recursos e adotar estratégias de comunicação. Empresas com governança estruturada, inclusive sobre princípios ambientais e sociais, têm vantagem competitiva. No evento também ficou evidente que rastreabilidade é um dos maiores desafios do setor. Consumidores e compradores querem saber onde e como cada alimento foi produzido e se foram respeitados aspectos ambientais e sociais. A maior parte dos fornecedores são pequenos, de agricultura familiar, sem tecnologia e crédito, sendo necessário integrá-los. Outro ponto é diminuir o desperdício de alimentos. Não é mais razoável termos uma parte significativa da população em situação de vulnerabilidade alimentar e estarmos entre os maiores produtores de alimento no mundo.

 

Em resumo, para que a agenda ESG avance, é necessário que a liderança entenda a relação do seu negócio com temas ambientais e sociais, invista na formação de seus gestores e formas de monitoramento desses aspectos, e comece a considerar um maior compartilhamento de informações relevantes entre todos os participantes da cadeia. Conhecimento e liderança fazem a diferença na execução dessa agenda. Essa execução definirá o nível de resiliência do negócio, no curto e longo prazo.

 

Mas não somente o negócio ganha com a implementação da gestão com foco em ESG. As questões ambientais, sociais e de governança são cada vez mais discutidas na sociedade e impactam as decisões de consumo das pessoas. Empresas éticas e com propósito claro, que adotam boas práticas ambientais, que têm políticas inclusivas consistentes, e que correspondem aos valores éticos de seus potenciais consumidores, ganham vantagem competitiva. Não é exagero dizer que, dentro de algum tempo, quem se recusar a abraçar princípios ESG sólidos e mensuráveis, perderá espaço no mercado.

 

*Fernando Gambôa é sócio-líder de Consumo e Varejo da KPMG no Brasil e na América do Sul.

**Nelmara Arbex é sócia-líder de ESG da KPMG no Brasil.

***Sebastian Soares é sócio-lider de Governança e ESG da KPMG no Brasil.

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